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domingo, 7 de setembro de 2014

O EROTISMO EM FERNANDO PESSOA

Por Nicéas Romeo Zanchett 

                 FERNANDO PESSOA, seguramente o mais polêmico poeta da língua portuguesa, seduz seus leitores ao entrelaçar em sua poesia misticismo e materialismo, emoção e razão, subjetivismo e objetivismo. 
                  Pessoa não era hétero nem homossexual, mas simplesmente nunca tivera um caso de amor verdadeiramente realizado. Isto explica porque comparava o amor à ilusão, ao sonho e o sexo a um acidente. 
" O amor é essencial;
 O sexo é só um acidente. 
Pode ser igual 
Ou diferente."
 Podemos observar que a sensualidade e o erotismo em Fernando Pessoa, manifesta-se de forma contida e velada - o erótico é intelectualizado a um nível de etéreo, de sonho, algo vago, evanescente quando não concebido como algo irrealizável, que o poeta se esquiva, foge por não ser capaz de envolver-se; por não querer sentir.
"Dorme o meu seio, 
Sonhando de sonhar...
No teu olhar eu leio
Um lúbrigo vagar. 
Dorme no sonho de existir
 E na ilusão de amar." 
                 Se Camões foi o maior poeta do amor da língua portuguesa, seguramente Fernando Pessoa foi o maior poeta do desamor. Sua obra nos mostra uma incompetência psicológica para amar, para se entregar a alguém. Quando diz: "quero-te para o sonho, não para o amor", o poeta deixa bem claro oque pode sentir pela mulher amada. O amor é demasiadamente concreto para a sua frágil sensibilidade e sempre busca o inatingível. Mas, por outro lado, esse poeta de desejos vagos e impossíveis é capaz de assumir uma posição diante do amor, mostrando-se totalmente destemido , em oposição aos rígidos preconceitos da sua época. 
                Sua sensualidade se resolve em percepções transparentes, tênues, com interpretações do sonho e da realidade, num erotismo sutil e brando. Mas, como podemos ver, no poema abaixo ele  mostra seu desejo por uma mulher: 
"Da a surpresa de ser. 
É alta, de um louro escuro. 
Faz bem só pensar em ver
Seu corpo meio maduro. 
.
Seus seios altos parecem 
(Se ela estivesse deitada) 
Dois montinhos que amanhecem  
Sem ter que haver madrugada. 
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E a mão de seu braço branco
Assenta em palmo espalhado
Sobre a saliência do flanco
Do seu relevo tapado. 
.
Apetece como um barco, 
Tem qualquer coisa de gomo. 
Meu Deus, quando é que eu embarco? 
Ó fome, quando é que eu como?"
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                  Fernando Pessoa se utilizava de diversos heterônimos e, dessa forma, consegue assumir uma despersonalização, desdobrando-se em outros poetas, cada um com seu próprio estilo e sua própria visão de mundo. É uma marcante característica de sua criatividade só possível para alguém multitalentoso que talvez precise esconder-se atrás de um personagem para criar e expressar seus verdeiros sentimentos. Entre os muitos pseudônimos que utilizava temos Ricardo Reis, Alberto Caeiro e Alvaro Campos; são nomes tão pessoais que realmente até parecem ser outras pessoas.  No seu processo de criação dos diversos heterônimos chega ao requinte de lhes atribuir até a data e local de nascimentos. Alberto Castro, segundo sua imaginação, nasceu em Lisboa no ano de 1889 e morreu em 1915; já o personagem Álvaro Campos nasceu em Tavira, no Algarves a 15 de outubro de 1890, precisamente a uma hora e trinta minutos da tarde; o seu imaginário Ricardo Reis nasceu no Porto e, segundo ele mesmo, não se recorda a data. Para dar mais vida aos seus personagens se dava ao trabalho de fazer o mapa astral de cada um. Ele dizia que "o poeta é um fingidor". 
                  O dilema razão "versus" emoção é uma constante em sua obra. O conflito assume, frequentemente, a forma dorida do sentimento que briga com o pensamento; do coração que não quer  querer, mas aceita e vai em frente; do amor que, apesar de muito querer, se fecha no próprio pensamento e não vai. Ele mesmo percebia esta dualidade quando dizia: "É como se o coração tivesse cérebro." - "Eu sou quem sou, que não sou meu coração."
                  No mundo da poesia  sempre devemos pensar num jogo de emoções com a palavra sempre buscando o sentido dela própria. No poeta o exercício de emoção é racional, cerebral e por isso é também melancólico; ele vê a efemeridade do prazer; vê a tristeza nas coisas alegres e morte onde há vida. Nesse mundo imaginário o toque do amor é inefável. 
 "Foi o desejo que sem corpo ou boca, 
A teus ouvidos de eu sonhar-te disse."
                   Com o heterônimo Álvaro Campos, Pessoa expressa sua sexualidade mórbida, masoquista, homossexual, como nesta famosa passagem de Ode Triunfal:
" Eu podia morrer triturado por um motor
Com o sentimento de deliciosa entrega duma mulher possuída. "
E da Ode Marítima
"Espanquem-me à bordo dos navios
Masoquismo através de maquinismos!"
                   Ainda em outro trecho da Ode Marítima pode-se facilmente perceber este lado erótico do poeta onde ele diz: 
"Ser meu corpo passivo a mulher de todas as mulheres
Que foram violadas, mortas, feridas, rasgadas pelos piratas!
Ser no meu ser subjugado, a fêmea que tem de ser deles!"
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                    Seu incontrolável desejo masoquista, além do mero prazer do sexo, fica bem evidenciado no seguinte trecho: 
"Ah, não sei que, não sei quanto queira eu ser de vós,
Não era só ser-vos a fêmea, ser-vos as vítimas
Ser-vos as vítimas - homens, mulheres, crianças, navios.
Ah, torturai-me para me currardes!
Minha carne - fazei dela o ar que vossos cutelos atravessam."
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                Na sua época, com tanta sinceridade, não podia ele se expressar senão através de seus heterônimos. O heterônimo de Álvaro Campos, de forma muitas vezes passiva, assume seu lado homossexual como se desejasse ser possuído. Em saudação a Walt Whitman, poeta homossexual, Campos diz-se "um dos teus", vestido com um "casaco exageradamente cintado" em elegância afeminada, igualando-se a Whitman a quem chama de 
" Grande pederasta roçando-te sobre a diversidade das coisas, 
Sexualizado pelas pedras, pelas árvores, pelas pessoas, pelas profissões."
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                  E ainda chama Whitman de "Rameira de todos os sistemas solares..."
                   Quando Campos beija o retrato do americano, sente que seus "beijos são mais quentes" e tem uma "ereção abstrata e indireta no fundo da alma". E sente: 
"Vontade...
De ser a cadela de todos os cães e eles não me bastam, 
...
De ser o esmagado, o deixado, o desolado, o acabado."
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                   O que ele realmente quer é um "gosto masoquista..." 
                    Whitman simboliza a androgenia, pois "Tua alma é um que são dois quando dois são um". 
                    Como Álvaro Campos ele diz: "Sentir tudo de todas as maneiras." e no Soneto suspira por "aquele rapazito louro / que me deu horas tão felizes". 
                    Com o heterônimo Alberto Caeiro o poeta mostra a sexualidade global. Mostra um panteísmo em que a amada é parte de um todo amorável e não um culto à sua personalidade: 
" Trouxeste-me a Natureza para o pé de mim, 
Por tu existires vejo-a melhor, mas a mesma, 
Por tu me amares, amo-te do mesmo modo, mas mais". 
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O amor traz uma sensação de completude, de plenitude:
O amor é companhia,  
 Já não sei andar só pelos caminhos."
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O amante prescinde da presença da amada, pois o amor internaliza e absorve o desejo:
"Mesmo a ausência dela é uma coisa que está comigo
Eu gosto tanto dela que não sei como a desejar."
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                    Embora bem diferente, Caeiro se aproxima dos outros heterônimos quando mistura razão e emoção: 
"Amar é pensar 
E eu quase me esqueço de sentir, só em pensar nela."
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                   Com Ricardo Reis, Fernando Pessoa abraça o tema do - viva o presente - e ia mais longe com sua poesia erótica, falando do prazer no amor carnal com orgias requintadas: 
"Gozo sonhado é gozo, 
ainda que em sonho. 
Nós, o que nós supomos nós fazemos."
                  Com tanto erotismo, Reis é o mais refinado e versejado em Odes greco-romanas. Nele encontramos uma poesia profundamente erótica com refinamento pagão: 
"Bocas roxas de vinho, 
Testas branca sob rosas, 
Nus, brancos antebraços 
deixados sobre a mesa. 
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Tal seja, Lídia, o quadro 
Em que fiquemos, mudos, 
... "
E com a sabedoria dos antigos, ele adverte: 
"Prazer, mas devagar, 
Lídia, que a sorte à queles não é grata
Que lhes das mãos arrancam. 
... 
Como um regato, mudos passageiros, 
Gozemos escondidos." 
                   Ricardo Reis é, talvez, o mais cerebral dos heterônimos de Fernando Pessoa. Com ele o poeta capricha na sintaxe e na busca de imitar o latim: 
"Como se cada beijo
Fora despedida, 
Minha Chloe, beijamo-nos amando." 
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"Cada dia sem gozo não foi teu, foi só durares nele. 
Quanto vivas sem que gozes, não vivas." 
                   Fernando pessoa chegou mesmo a declarar que, em sua poesia erótica em inglês, teria sido "obsceno". 
                   No poema Epithalamium, em grego, que representa o conceito romano do mundo sexual de forma bruta, Pessoa celebra, com muito requinte, a perda brutal e deliciosa da virgindade com momentos de sadomasoquismo.  Na estrofe XVIII, o poeta explicita o ato sexual: 

"lollo! eis que corre o suco da tesão do prazer
Através das malhas desses corpos
Que agora sofrem realmente por despir-se e empreender 
Sobre a carne um do outro
 A guerra que enche o ventre e põe leite nas 
Tetas que um homem deveras conquistou, 
A batalha lutada com tesão para juntar-se e se ajustar, 
E não para ferir ou agredir."
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                  Neste genial poema, Pessoa mostra o homem subjugando a mulher no ato sexual através de seu poder fálico. Ela submissa e derrotada, tem seu ventre preenchido pelo gozo de seu amado conquistador.

"Amo como ama o amor. 
Não conheço nenhuma outra razão para amar. 
Que queres que te diga, além de que te amo,
Se o que quero dizer-te é que te amo? " 

BREVE BIOGRAFIA
                Fernando Antônio Nogueira Pessoa, foi um poeta, filósofo e escritor português. Como poeta, expressou-se com heterônimos diversos e com múltiplas personalidades. Seu lado erótico e polêmico é o que mais despertou a curiosidade, provocando a maior parte dos estudos sobre sua vida e obra. Os três heterônimos mais conhecidos foram Alberto Caeiro, Álvaro Campos e Ricardo Reis. Justamente aqueles mais utilizados para expressar sua sexualidade. Nascido a 13 de Junho de 1888 e falecido em 30 de novembro de 1935, aos 46 anos de idade..
Nicéas Romeo Zanchett

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terça-feira, 2 de setembro de 2014

AS CONFISSÕES DE SANTO AGOSTINHO

Por Santo Agostinho
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Santo Agostinho, o maior dos doutores da Igreja latina, nasceu na África Setentrional a 13 de Novembro de 354 d.Cristo e morreu  em Hipo -(Numídia)-  a 28 de Agosto de 430. Recebeu a sua primeira educação em Cartago, e adquiriu fama como homem de leis e grande orador. Nos primeiros anos  pertenceu à seita dos Manicheus,  apesar do ensino cristão de sua mãe, Santa Mônica; mas aos trinta anos de idade o bispo Ambrósio, em Milão,  converteu-o ao cristianismo. Em 396 foi congregado bispo de Hipo na África, onde esteve até morrer. A ele se deve, principalmente, a forma atual da doutrina cristã. As suas principais obras foram: Confissões, 397 e A Cidade de Deus escrita em 426. 
Nicéas Romeo Zanchett 
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CONFISSÕES 
Por santo Agostinho
        Como chegou à juventude e entregou-se aos vícios 
                Quero lembrar-me das minhas fealdades passadas, e das carnais torpezas da minha alma; não porque as ame, mas para vos amar vós, meu Deus. Por amor do vosso amor o faço assim, trazendo à memória meus torcidos caminhos, em amargura da minha alma; para que vós me sejais doce, doçura verdadeira, que não engana, doçura ditosa e segura, que me congregastes da divisão, pela qual sou dividido em pedaços. Porque apartando-me de vós, que sois sumo bem para muitas coisas, me tornei em nada. Ardia eu algum dia com desejo de sacudir-me de saciar-me nestas coisas baixas, querendo nadar em vícios e tenebrosos amores: e a minha formosura se destruiu e corrompeu, e me desfez diante dos vossos olhos, agradando-me a mim, e querendo contentar os olhos humanos. 
                Que outra coisa me deleitava, senão o amar e ser amado? Mas não usava eu nisto do modo devido, guardando os termos do amor puro e nobre, senão que subiam umas névoas do lodo da minha carnal concupiscência e dos esconderijos da mocidade, que ofuscavam e escureciam o meu coração em tal forma, que não se conhecia a serenidade do amor pela escuridade do mau apetite.  Ardia um e outro confusamente; e arrebatando a minha fraca idade por uns despenhadeiros de apetites, me submergiam em pélago de pecados...
                Aonde estava eu? Quão longe andava desterrado dos deleites da vossa casa no ano dezesseis da idade da minha carne, quando esta tomou em mim o cetro e lhe rendi as mãos com a loucura da minha lasciva, permitida pela torpeza humana e ilícita pela vossa  Lei santa. Não tiveram cuidados os meus, vendo-me cair, de levantar-me com o remédio do lícito matrimônio; mas cuidavam em que fosse grande Orador, para que com minhas artificiosas palavras persuadisse os homens. 
                 
Das jornadas que fez por motivo dos seus estudos
                 Naquele ano deixei de estudar alguns dias, vindo da cidade de Madauro (diocese), onde havia ido para estudar a Oratória, enquanto ordenavam mandar-me a Cartago, cidade que estava algum tanto mais remota que a primeira; a cujo caminho e empresa eu me dispunha com mais ânimo que dinheiros, por ser meu pai um pobre cidadão da cidade de Tagaste (Numídia). Mas a quem conto eu, Senhor, estas coisas? Não a vós, meu Deus; mas conto-as na vossa presença à minha geração, que é o gênero humano, que vir este meu livro. Porém, para que digo eu isto? Para que eu, e os que isto lerem saibamos de quanta profundidade vos devemos invocar. Mas que coisa há tão próxima, e propínqua como os vossos ouvidos, se o coração vos confessar, e a vida for conforme à fé. Quem havia que não desse louvor a meu pai, porque gastava comigo mais do que permitia a sua possibilidade, dando-me tudo o que era necessário para o meu estudo, sendo grandes os gastos, que nisto se faziam, em um país tão remoto; não se praticando semelhante diligência e cuidado na provisão dos filhos de outros mais ricos que meu pai; mas não se fatigava ele muito em como havia de crescer, e aproveitar no vosso serviço, nem tinha muito cuidado da minha castidade; mas todo seu cuidado era, que eu fosse sábio e discreto; ou para melhor dizer, apartado de vos servir a vós, meu Deus, que sois único e verdadeiro Senhor do vosso campo, que é o meu coração.
                  Mas naquele décimo sexto ano, que não estudei, por causa da necessidade em que estava a casa de meu pai, enquanto me aparelhavam as coisas necessárias para o estudo, estive em casa, dando-me ao ócio, onde cresceram tanto os espinhos dos vícios sobre mim, que me cobriram a cabeça e não havia mão que os arrancasse. Antes vendo-me meu pai nos banhos rodeado da inquieta juventude, como quem já folgava, com a esperança de ter de mim netos, o disse a minha mãe, alegrando-se com a embriaguez das coisas deste mundo, com que os homens se esquecem de seu Criador, e amam a criatura em vez de amar-vos a vós. Bem invisível, pervertendo o amor da sua perversa vontade abatida das coisas baixas. Mas no peito de minha mãe já vós haveis começado a edificar o vosso templo e morada; porque meu pai ainda era catecúmeno, e novo nas vossas coisas. De sorte que minha mãe, vendo isto, se alegrou com um pio tremor; e ainda que eu não era naquele tempo muito fiel, temeu ela os meus torcidos caminhos, por onde caminham os que vos não querem ver e vos voltam as costas. 
                Ai de mim! Atrevo-me a dizer que vós, Deus meu, vos caláveis andando eu longe de vós. Assim caláveis, e não me faláveis. Mas de quem eram senão vossas aquelas palavras, que cantastes aos meus ouvidos, por minha mãe,fiel serva vossa? ainda que nada delas entrava no meu coração para o por obra. A sua vontade era que eu me apartasse de toda a mulher, principalmente das casadas; e por certo me lembro muito bem que me aconselhou isto com muita eficácia; cujos conselhos me pareciam conselhos de mulheres, aos quais eu tinha vergonha de obedecer. Porém eles eram conselhos vossos, e eu não os conhecia, mas cuidava que vós caláveis; e falando aquela, pela qual vós não deixáveis de me falar, vos desprezava naquela vossa serva, eu filho seu e servo vosso. Mas eu não sabia o que fazia, e ia cego de cabeça abaixo, caminhando à minha perdição; de forma que, entre os meus iguais e companheiros, tinha vergonha de ser menos desonesto do que eles, quando os ouvia louvarem-se das suas desonestidades; os quais tanto mais se vangloriavam, quanto eram mais torpes; e me deleitava no mal obrar, não tanto pela má obra, como por louvar-me dela. Que coisa há digna  de vitupério senão o vício? E eu cego, por não ser vituperado, me fazia mais vicioso; e quando não tinha cometido algum mal, pelo qual me pudesse igualar com perdidos, fingia ter feito o que nunca fizera, por não parecer e ser estimado em menos, quanto era mais inocente; e por não ser tido mais vil, quando era casto. 
               Estes são os companheiros com que eu passeava pelas praças de Babilônia; e me revolvia em seu lodo, como se fora bálsamo, ou cinamomo, ou outros cheiros, e preciosos perfumes. E no meio dela, para mais se apegar e enlodar, me achava invisível e me enganava, porque eu era enganado. Nem tão pouco aquela que já tinha fugido do meio da Babilônia (digo minha mãe), ainda que no demais não caminhava mui depressa, assim como me havia persuadido a castidade, assim cuidou no que meu pai de mim tinha dito; e ela entendia que para o diante poderia ser coisa pestilencial e perigosa, isto é, não cuidou em refrear com o matrimônio o que de todo não podia tirar.  Não cuidou nisto, porque cuidou que seria embaraçada a minha esperança com a prisão da mulher; não digo aquela esperança, que minha mãe em vós da outra vida, mas a esperança das letras, as quais meu pai e minha mãe desejavam muito que eu aprendesse, ele porque de vós quase não cuidava, e de mim cuidava vaidades; e ela, porque cria que não só me não podiam fazer dano as letras, mas antes me podiam ajudar alguma coisa a conhecer-vos. Isto é quanto eu posso alcançar dos costumes de meu país. Afrouxavam-me também as rédeas, para que  não jogasse mais do que convinha à severidade, para dissolução de várias paixões e desejos desordenados; e em todos, meu Deus, havia uma curiosidade, que me escondia e cerrava a serenidade da vossa claridade e saia como uma grossura a minha maldade. 
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 A seguir ele conta sobre um furto que fez. 

                 A Vossa Lei, Senhor, sem dúvida castiga o furto, que é lei escrita nos corações dos homens, a qual nem a mesma maldade pode apagar. que o ladrão há que sofra com paciência o outro? nem ainda o rico consente que furte o pobre: e eu quis furtar e o executei, sem ser obrigado da necessidade nem de falta alguma; mas enfadado da justiça e cheio de excessiva maldade. Porque furtei aquilo que me sobrava; e era muito melhor o que eu tinha, que o que furtava. Nem me queria aproveitar daquilo que furtava; mas folgava-me com o furto, e com o pecado. Havia  um peral junto da vossa vinha, carregado de peras, não gostosas nem formosas; este peral sacudimos nós uma noite e roubamos as peras, alta noite; e depois de havermos jogado em umas eiras fomos bem carregados delas, não para as comer, mas para as deitar aos porcos, ainda que nós também comemos alguma coisa delas. De forma que o que fizemos delas só nos foi gostoso por ser vedado. Vedes aqui o meu coração; Deus meu, vedes aqui o meu coração do qual tiveste misericórdia no meio do abismo. Diga-vos agora o meu coração, que buscava ele nisto, em ser mau sem porque, e sem haver causa da minha malícia senão a minha mesma malícia. Era feia, e eu a amava. Amei a minha morte e a minha perdição; e amava não tanto aquela em que pecava, como esse mesmo pecar. Torpe era a minha alma, saindo fora da vossa firmeza para minha perdição e não desejando coisa alguma afrontosa, mas amando a mesma afronta.
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Em seguida ele nos fala que ninguém peca sem causa
               Não se pode negar haver nos corpos formosura, como claramente se vê no ouro e na prata, e em tudo o mais; e a conveniência que se sente no tato da carne pode muito, e em cada um dos outros sentidos tem sua harmonia e conserto dos corpos. Tem também sua formosura a honra temporal e o poder de mandar; de onde nasce o desejo da vingança; e contudo nós não havemos, Senhor,apartar de vós, nem de vossa lei por alcançar estas coisas. E a vida que aqui vivemos tem seus afagos, por certo modo e conveniência da sua formosura e decoro, com tudo, isto que cá em baixo parece bem. Também a amizade dos homens é uma suave paixão, pela unidade de muitos ânimos. Por todas estas coisas e outras semelhantes pecamos, quando com uma imoderada inclinação que lhes temos, sendo eles os mais abatidos bens, deixamos os maiores e melhores, a vós Senhor, nosso Deus e nossa verdade, e a vossa lei. Na verdade, que estas coisas baixas tem seus deleites; mas não como o meu Deus, que as fez; porque nele se deleita o justo, e ele é o deleite daqueles que são retos de coração. 
                 De maneira que, perguntada a causa porque se comete algum pecado, não se costuma crer haver outra, senão o apetite de alcançar algum daqueles bens, que dissemos serem os últimos e derradeiros, e  o medo de os perder. São eles sem dúvida formosos, o que se não pode negar, ainda que em comparação dos soberanos e beatíficos, os de cá debaixo são vis e de nenhum valor. Aquele outro matou um homem. Por que? porque queria bem a sua mulher ou desejava a sua fazenda, ou o queria roubar para ter de que viver; ou porque temia do que matou outro tanto mal, ou se quis vingar dele pelo ter afrontado. Pode haver homem algum que matasse a outro, somente por se deleitar no homicídio, sem haver precedido causa? Quem tal há de crer? Pois aquele malvado e cruel Catilina -(Lúcio Sérgio Catilina, Senador e militar da Roma antiga) - de quem deixamos dito ter-se exercitado em tais obras, por não ter ociosas as mãos e o ânimo; a causa já a dissemos; a saber que se quis empregar em semelhantes obras, por não ter ociosas as mãos e o ânimo. E isto porque? para que, exercitado nestas maldades, e apoderado de Roma,alcançasse honra e fazenda, e mando livre das leis, da pobreza e da consciência. De sorte que nem este Catilina cruelíssimo amou as suas crueldades e vícios por si mesmos. 

Trechos retirados do livro de Confissões de Santo Agostinho.
Nicéas Romeo Zanchett 

quarta-feira, 25 de junho de 2014

PAULO E VIRGÍNIA - Por Bernardin de Saint Pierre



PAULO E VIRGÍNIA 
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                     Na encosta oriental da montanha, que se eleva por detrás de Port-Louis, na ilha de França, veem-se as ruínas de duas pequenas cabanas.  Uma vez que o autor se encontrava junto delas gozando do panorama imenso e da solidão profunda, um homem de cabelos brancos e de fisionomia simples e nobre passou por lá. 
                     Após trocar algumas palavras com o autor, como este lhe perguntasse a quem haviam pertencido aquelas cabanas, respondeu: 
                    - Eram habitadas por duas famílias, cuja história é comovedora. Mas a quem poderá ela interessar?  Os homens não querem conhecer senão a história dos grandes e dos reis. Então o escritor insistiu para que lhe contasse a história e este narrou como era simples e dramática a vida de Paulo e Virgínia. 
                    -  Em 1726, um jovem da Normandia, chamado o Senhor de la Tour, veio a esta ilha em busca de oportunidade para fazer fortuna. Aqui deixou a mulher, uma senhora ainda moça que o tinha desposado contra a vontade de seus pais, e embarcou para Madagascar com a intenção de comprar um negro que seria seu escravo, para em seguida voltar e fixar residência neste local. 
                    Mas em Madagascar foi atacado pelas febres, que assolavam aquele lugar, e lá morreu.  
                     A Senhora de la Tour ficou sozinha com uma filhinha que ainda mamava no peito chamada Virgínia, e uma escrava preta chamada Maria. Aceitando corajosamente seu triste destino dispôs-se a cultivar um cantinho de terra para ter com que viver.  Foi então que a Providência Divina lhe mostrou  o que lhe havia reservado o destino. Ela nunca havia imaginado que, no meio daquela solidão,  encontraria  uma amiga chamada Margarida.  Esta, por sua vez, tinha um filhinho, Paulo, e um escravo preto chamado Domingos.   
                     As duas senhoras, além da bondade de alma e dos simples costumes de vida, teriam uma idêntica desventura. Logo começaram a tratar-se por irmãs. 
                     O tempo passou e elas viam seus filhos crescerem juntos e De la Tour dizia a Margarida: 
                    - Minha querida amiga, cada uma de nós terá dois filhos e cada um dos nossos filhos terá duas mães. 
                    Também os dois pequenos logo começaram a falar e tratar-se como irmãos. Muitas vezes adormeciam juntos no mesmo berço, nos braços um do outro; e as mães já começavam a falar do sagrado nó que os uniria quando chegassem à juventude. 
                      Paulo e Virgínia não sabiam ler nem escrever e não conheciam o mundo além dos limites de sua ilha. Seus alimentos eram simples e rezavam a Deus com coração inocente e puro. 
                     A infância decorria-lhes como uma bela aurora que anuncia cada dia ainda mais belo que o anterior. 
                     Virgínia, mal acordava de manhã cedo, ia à fonte buscar água para fazer o almoço. Era uma formosa moça de doze anos, de olhos negros e lábios suaves e corados. 
                     Guiado pelos ensinamentos da natureza, Paulo plantava árvores, cultivava o campo, onde plantava arbustos e flores,  colhendo frutos, embelezando e tornando fecundo os lugares mais estéreis. 
                     Os dois amavam-se e não poupavam esforço na hora de ajudaram-se, sempre dispostos a agradar um ao outro; mas não regateavam também a sua piedade e seu socorro às desventuras alheias. 
                    Num domingo, quando as duas amigas tinham ido à missa, apareceu no bananal uma senhora negra, que atirando-se aos pés de Virgínia, dizia-lhe: 
                    - Minha querida menina, tenha piedade dessa pobre escrava; fugi do meu senhor porque me batia da manhã à noite; já faz um mês que ando pelas montanhas esfomeada e perseguida por seus caçadores e cães.   
                   Paulo e Virgínia confortaram-na, deram-lhe de comer, e depois resolveram eles mesmos irem pedir ao patrão da mísera escrava, que habitava nas margens do rio, no outro lado da montanha. Esse homem, de cor morena com sobrancelhas pretas, observava a bela figura de Virgínia e, ouvindo a voz suplicante, tirou o cachimbo da boca e prometeu perdoar a escrava fugitiva.   
                    Ao voltarem para casa, já no meio do caminho, sentiam-se cansados e com fome. Paulo foi à procura de alguma coisa para Virgínia comer; enquanto isso a noite chegou e viram que não poderiam voltar, mas não queriam passar a noite naquele lugar inóspito. O jovem pôs-se a chorar e Virgínia tentava animá-lo dizendo: 
                   Rezemos, e Deus terá piedade  de nós. 
                   Tinham acabado a oração quando ouviram um latido ao longe. Era seu fiel cão que vinha ao seu encontro seguido pelo criado Domingos. O negro, contente por tê-los encontrado, acendeu uma fogueira e os reanimou; mas resolveram pôr-se a caminho, preocupados com o crescente frio na noite e com a inquietação que estariam as mães. Entretanto, além do cansaço,  já estavam com os pés vermelhos e inchados. 
                   Domingos estava cada vez mais preocupado por não poder prestar bom socorro às duas crianças. Eis que de repente surge um grupo de escravos fugitivos; eles haviam tomado conhecimento sobre a atitude de Virgínia intercedendo pela escrava fugitiva e, em sinal de agradecimento, se ofereceram para levar as duas crianças nos ombros até sua casa.
                   Em casa, as duas mães estavam aflitas à procura dos filhos e ficaram muito felizes com sua chegada e  imediatamente providenciaram de comer e beber para os escravos fugitivos que logo partiram.
                   A paz e a serenidade voltaram a reinar entre aquelas pessoas que não conheciam a inveja, nem a vaidade, nem a intriga e nem a calúnia. Essas virtudes e até seus nomes eram desconhecidos na ilha e quando algum viajante, no caminho de Pamplemus,  peguntava quem morava naquelas duas cabanas, a resposta era sempre a mesma: 
                  - É boa gente. 
                   Vivendo na solidão, em vez de se tornarem mais rudes, tornavam-se mais humanos. Suas conversações eram suaves e inocentes. Paulo costumava falar  dos trabalhos do dia anterior e oque faria no seguinte. 
                   Muitas vezes a senhora De la Tour lia em voz alta um trecho do Novo ou do Velho Testamento. Tudo a volta os induzia admirar uma inteligência infinita, onipotente e benéfica;  e esta confiança em Deus enchia-os de consolo pelos sofrimentos do passado, de coragem para o presente e de esperança para o futuro. 
                   Aos domingos sempre iam à missa na igreja d Pamplemus; com muita delicadeza sempre se recusaram a travar relações com as famílias do lugar, mas nunca se furtaram ao auxílio do seu conselho ou dos seus presentinhos para quem quer que deles precisasse. 
                   Principalmente Virgínia, costumava ir com a mãe visitar e confortar os doentes, aliviando-lhes as penas do corpo; fazia uma espécie de pregação elevando-lhes seus espíritos e os direcionando para Deus. 
                   Às vezes voltavam tarde e a noite os surpreendia nas florestas; mas o ar puro  e a suavidade do clima, permitiam-lhes dormir em baixo das árvores; ali não havia perigo de ladrões nas casas que ficavam abandonadas, pois que naquela ilha, onde não havia comércio, estava-se em completa segurança e ninguém se lembrava sequer de fechar as portas  com chave.  
                   Para Paulo e Virgínia, o dia do aniversário de suas mães era muito especial e cheio de alegrias. Virgínia preparava bolos para as famílias necessitadas e Paulo é quem os distribuía e aproveitava para convidar a todos a vir passar o dia em casa de Madame de la Tour. Acarinhavam-nas, cumulavam-nas de atenções e de confortos, tanto quanto o permitia a sua humilde condição. Eram, em suma, muito felizes, mais do que aqueles que viviam nos meios sociais, pois neles em breve se atinge o cansaço dos seus gozos artificiais, ao passo que os que proporciona a natureza e a religião são inexauríveis.  
                    Paulo e Virgínia não tinham calendário e nem relógios; os períodos de sua vida eram regulados pela natureza. 
                    - A sombra da bananeira já chegou ao pé da árvore, dizia Virgílio; é hora de descansar. 
                    - Quando voltaremos a nos ver? perguntavam-lhe as amigas. 
                    - Na época da cana de açucar, respondia Virgínia. 
                    Quando alguém lhe perguntava que idade tinham, ela e Paulo, respondia: 
                     - Meu irmão é da idade do coqueiro ao pé da fonte, e eu do mais pequeno. 
                     Assim iam crescendo sem preocupações, cuidados, e sem que algum pensamento viesse perturba-lhes seu espírito infantil.
                     Durante o verão ocorreu uma seca, que tornou áridas as terras, atormentou com sede os animais, secou os ribeiros, com ventos tórridos do Sudeste soprando sem  cessar. 
                     Num certo dia, de excessivos calores, levantaram-se imensas nuvens  no horizonte trazendo trovões violentos e fortes ventanias, um verdadeiro dilúvio. As casas onde se abrigavam as duas famílias ameaçavam desabar.  Paulo percorria intrepidamente os diferentes locais da casa, segurando aqui uma parede, colocando acolá um barrote, e não se esquecendo, entretanto, de tranquilizar a família. A noite o furacão cessou e os dois jovens saíram a passeio. Paulo disse a Virgínia: 
                    - Por que não tenho coisa alguma que possa oferecer-te em testemunho do meu afeto?
                    E Virgínia respondeu perguntando-lhe: 
                    - Tens ainda o retrato de São Paulo?
                    Era um retrato do santo, em miniatura, o qual se assemelhava  singularmente a Paulo. O jovem imediatamente foi buscá-lo e o deu a Virgínia. 
                    Num certo dia Margarida disse à sua amiga Senhora Tour: 
                     - Por que não casamos os nossos filhos? Eles se querem tanto que parecem terem nascidos um para o outro. 
                    A Senhora Tour respondeu-lhe: 
                    - São muito novos e muito pobres. Mandemos Paulo às Índias, onde poderá ganhar dinheiro e comprar um escravo, pois Domingos está cada vez mais velho e Maria cada vez mais doente. 
                     Quando falaram sobre o assunto com Paulo ele lhes respondeu: 
                     - Por que hei de deixar minha família e ir atras de uma riqueza incerta? E se acontecesse algum mal na minha ausência? Se Domingos está velho e fraco, eu estou novo e me sinto cada vez mais forte. Aqui mesmo poderemos comercializar, vendendo na cidade o que sobra de nossos produtos. 
                     E não houve modo de persuadi-lo.
                     A Senhora de la Tour tinha um tia mito rica que morava na França e nunca lhe havia prestado qualquer auxílio. Mas agora, estando doente e sem esperança de cura, escreveu à sobrinha, chamando-a para perto de si. Se ela não pudesse ir, que mandasse Virgínia, à qual lhe oferecia uma boa educação em Paris, prometendo deixar-lhe todos os bens que possuía. 
                     Essa notícia causou enorme espanto nas duas famílias. Mas a Senhora de la Tour exclamou: 
                     - Não tenhas medo que não vos deixarei. Tenho vivido convosco e convosco hei de morrer.
                     Paulo abraçou-a com imensa alegria dizendo: 
                      - Também nunca a deixarei. Não irei para a Índia; trabalharemos todos para voz e espero que nada vos faltará. 
                     No dia seguinte chegou à humilde habitação o governador da Colônia trazendo, da parte da tia rica de Paris, um grande saco de moedas para as despesas da viagem. Usou de toda sua eloquência para convencer a Madame de la Tour sobre o mal que estaria fazendo  por perder a oportunidade oferecida á sua filha. Tratou ainda de tentar persuadir Virgínia de que a fortuna seria boa também para o Paulo, e a pequena acabou por se convencer. 
                     A ideia de que Virgínia iria partir fez Paulo mergulhar na mais profunda tristeza. Este então chamou sua irmanzinha e perguntou-lhe: 
                      - Onde poderás tu ser mais feliz do que entre aqueles que te amam? Como poderás viver sem o carinho de sua mãe e da minha? Que direi eu a uma ou a outra, quando as vir chorar pela tua ausência?  O que sentirei eu ao olhar para as duas palmeiras que foram plantadas quando nós nascemos e que até hoje tem sido testemunhas de nossa amizade? 
                     Estas e muitas outras palavras desesperadas disse Paulo, fazendo a pobre Virgínia chorar lágrimas que lhe escaldavam as faces. 
                     - Paulo, que sempre fora indiferente à tudo o que acontecia pelo mundo, pediu-lhe então que o ensinasse a ler e a escrever, para poder mandar suas notícias para Virgínia e receber e ler as dela. Também quis aprender história e geografia para formar uma ideia do país para onde ela iria e conhecer os costumes daquela sociedade em que iria entrar. 
                    Quando já havia passado dois anos da partida da filha, a Senhora de la Tour recebeu uma carta da filha. Não era a primeira vez que escrevia, pois estava estudando com os melhores mestres; entretanto, as cartas anteriores foram interceptadas pela tia. Tendo percebido a atitude da tia, desta vez, enviou a carta através de uma amiga, pedindo à mãe que também respondesse para a casa da amiga.  Nessa carta Virgínia descrevia os esplendores em que vivia, mas não conseguia disfarçar que não se sentia feliz. E como poderia deixar de ser assim? Vivendo no meio da opulência, não recebia nenhuma mesada, não tinha sequer alguns trocados para dar de esmola a um necessitado. Assim, sentia-se mais pobre do que nunca. Nem o luxo, nem a instrução poderiam compensá-la das livres e serenas alegrias que tinha gozado na sua humilde cabana. 
                   Paulo havia perdido a esperança de que Virgínia regressasse. Imaginava que o haviam afastado definitivamente dela. Dizia para o amigo: 
                   - Virgínia não me escreve mais. Se já tivesse partido da Europa, ter-me-hia avisado. Não, não volta. Certamente a tia casou-a com algum fidalgo e ela esqueceu-me. 
                   O amigo o incentivava a encher-se de coragem e procurar nos livros o conforto para suas mágoas. 
                    Um dia, ao romper da manhã, Paulo viu hasteada num monte, uma bandeira branca; era sinal de que algum navio estava à vista. Pouco depois, por intermédio do piloto do porto que tinha ido reconhecer o navio que chegava, a Senhora de la Tour recebeu uma carta de Virgínia. A donzela mandava contar a sua mãe os maus tratos da tia por ela se recusar a aceitar o casamento com um senhor da alta sociedade. Tendo-se firmemente recusado a obedecer-lhe, ela a tinha deserdado e mandado para a de volta,  isto aconteceu numa época que só lhe permitia chegar no período dos furacões. Impaciente por tornar a ver os que lhe eram queridos, a menina queria nesse mesmo dia embarcar no barco do piloto, mas o capitão não lhe permitiu por causa do mar que estava revolto.
                     Ao ler a carta a família toda ficou em total alegria. Por volta das dez da noite Paulo foi chamar o amigo para lhe acompanhar. Quando se dirigiam juntos para Pamplemus, encontraram um negro que, a toda a pressa, se dirigia para o porto. Disse ele: 
                     - Vou avisar o governador de que um navio da França está dando tiros de canhão para pedir socorro. 
                     Ouvindo isso, Paulo e seu amigo apressaram o passo, sem dizer uma única palavra. Lá pela meia noite chegaram banhados de suor à praia. As ondas quebravam com força  de encontro aos rochedos. A escuridão não deixava ver nada no mar. 
                      O tempo passou como uma eternidade e pelas sete horas da manhã ouviram um rufar de tambores. Era o governador seguido de alguns soldados. A um sinal dado por eles com tiros de espingarda respondeu do mar o navio com um tiro de canhão. Distinguiu-se então, através da neblina, o casco e o mastro d'uma grande nau. Não obstante o imenso barulho das ondas, ouvia-se gritos e apitos dos marinheiros que repetiram por três vezes: 
                     - Viva o Rei!  - o grito que soltam as equipagens francesas quando estão em grande perigo. 
                     O governado mandou acender grandes fogueiras e procurar, em todas as casas do povoado, mantimentos e utensílios para atender aos viajantes que estavam chegando. 
                     Na manhã seguinte, por volta das nove horas, o furação perdeu força e acalmou-se. Um tremendo ciclone transportou a névoa que cobria a ilha de Ambra e o canal, e a nau apareceu descoberta, com convés carregado de gente, ancorada entre a ilha e a terra. A cada onda que batia, a proa levantava-se deixando ver a quilha, e a popa emergia a ponto de desaparecer. 
                     Num dado momento romperam-se as amarras que seguravam as âncoras ao fundo do mar, e o navio veio a bater nos escolhos da praia. Foi um momento de angustiosa expectativa. Da praia levantou-se um unânime grito de horror. Paulo fez menção de se atirar no mar, mas seu amigo teve tempo de segurá-lo. Depois, vendo que o desespero o pusera fora de si, o amigo e domingos amarraram-lhe à cintura uma grande corda e deixaram-no avançar para a nau. Ora caminhando sobre os rochedos, ora nadando, ora impelido pelas ondas, ora retido pela ressaca, continuava impávido, incansável e tão obstinado que parecia não sentir as pancadas que as ondas lhe davam no peito, nem as feridas sangrentas que os rochedos lhe tinham feito nas pernas. 
                   A equipagem precipitava-se ao mar, sobre mastros, mesas, botes, etc. Apareceu então à popa uma donzela e estendeu os braços para Paulo,  que fazia esforços sobre-humanos para salvá-la. Houve um tripulante que se acerco dela, procurando salvá-la. Mas uma espantosa montanha de água avançou. Virgínia elevou os olhos ao céu e abandonou-se às ondas. 
                  O corpo da desventurada mocinha foi depois arremessado à praia. Os olhos fechados, as feições serenas. Na mãozinha direita, de encontro ao peito, ainda apertava o retrato de Paulo. 
                   Paulo foi levado, sem sentidos, a uma casa vizinha. Quando voltou a si não disse  uma única palavra. 
                  Igual à sua era dor da Madame de la Tour, a quem em vão Margarida procurava confortar. 
                  Os funerais de Virgínia foram os mais comoventes que se pode imaginar. Como homenagem à virtuosa a infeliz donzela, o governador ordenou que se fizesse solenes exéquias. Quando o cortejo passou em frente às duas cabanas, onde por certo tempo se albergavam a felicidade das duas famílias, o hinos cessaram e só se ouvia soluços. Muitas moças corriam para tocar o caixão invocando Virgínia como uma santa. As mães pediam a Deus que suas filhas fossem como aquela jovem que era, para os pobres, uma amiga tão sincera. 
                  Algumas escravas negras depuseram cestos de frutas no seu tumulo e suspenderam peças de pano nas árvores vizinhas, à maneira de suas tribos. As mulheres de Malabar trouxeram gaiolas cheias de pássaros, aos quais deram a liberdade conforme a linda tradição dos seus países. 
                  Mas Paulo não assistiu às honras prestadas à sua amiga dileta. Esteve muitos dias entre a vida e a morte, e quando recobrou as forças, seu amigo, em vão tentou distraí-lo da sua dor. Inutilmente repetia: 
                   - Virgínia continua existir; e é mais feliz do que quando estava conosco; está com Deus; e Ele não pode deixar de recompensá-lo por tudo de bom que fez nesta vida. 
                    Mas nem este pensamento bastava para consolá-lo. Dois meses após a morte daquela que ele chamava de irmã, Paulo morreu também e sua mãe segui-o ao túmulo no fim de oito dias.
                     A infeliz tia Madame de la Tour, que tantos males tinha ocasionado, morreu atormentada de remorsos e de espantosas visões num manicômio, onde havia sido internada como louca por alguns parentes ávidos das suas riquezas. 
NOTA: lembro a todos que esta e outras histórias são resumos que fiz das originais. 
Meu objetivo é despertar a curiosidade e o interesse pela leitura dos grandes clássicos.
Nicéas Romeo Zanchett 

BREVE BIOGRAFIA DE Bernardin de Saint Pierre. 
    Mais tarde vou escrever a biografia.

                      

domingo, 23 de fevereiro de 2014

UMA PAIXÃO NO DESERTO - Por Balzac



UMA PAIXÃO NO DESERTO 
 Por Honorato Balzac 
ou Honoét Balzac 
.
                    No tempo da expedição empreendida no Alto-Egito pelo general Dessaix, um soldado Provençal, tendo caído em poder do Maugrabinos, foi levado por estes árabes aos desertos situados além das cataratas do Nilo. Tendo em vista porem entre si e o exército francês um espaço bastante para a sua tranquilidade, os Maugrabinos fizeram uma marcha forçada, e só à noite é que pararam. Acamparam-se em roda de um poço encoberto por palmeiras, junto das quais haviam precedentemente enterrado algumas provisões. Não imaginando que a ideia da fuga entrasse na cabeça do prisioneiro, contentaram-se com prender-lhe as mãos, e adormeceram depois de terem comido algumas tâmaras, e dado cevada aos cavalos. Quando o atrevido Provençal viu os inimigos em estado de não poderem espioná-lo, serviu-se dos dentes para apoderar-se de uma cimitarra, depois, ajeitando-se com os joelhos para fixar o gume, cortou as cordas que vedavam o uso das mãos e ficou imediatamente livre. Para de logo lançou mão de uma cimitarra e de um punhal, precaveu-se com uma provisão de tâmaras secas, com um pequeno saco de cevada, com pólvora e balas; cingiu uma cimitarra, cavalgou, e desfilou na direção em que supos que estaria o exército francês. Impaciente por encontrar um bivac, incitou de tal forma o corcel já fatigado, que o pobre animal expirou, aberto dos peitos, deixando o francês no meio do deserto.
                   Depois de ter caminhado por algum tempo pela areia com toda a coragem de um forçado que se evade, o soldado viu-se obrigado a parar, no findar do dia. Apesar da beleza do céu das noites do oriente, não se sentiu com forças para continuar o caminho. Felizmente pode chegar a uma eminencia, no alto da qual se erguiam algumas palmeiras, cujas folhas, de ha muito tempo avistadas, despertaram no seu coração as mais doces esperanças. O cansaço era tamanho que se deitou sobre uma pedra de granito, caprichosamente entalhada em forma de leito de campanha, e ali adormeceu sem se lembrar de tomar precauções para enquanto dormisse. Fizera o sacrifício da sua vida. O último pensamento foi uma saudade. Arrependia-se de ter evadido de entre os Maugrabinos, cuja vida errante começava a sorrir-lhe, desde que se vira longe deles e sem socorros. O sol veio acordá-lo com os despiedados raios batendo de chofre sobre o granito, produzindo um calor intolerável. O Provençal colocara-se desajeitadamente no sentido inverso da sombra projetada pelas grimpas verdejantes e majestosas das palmeiras... Contemplou aquelas árvores solitárias e estremeceu! Lembravam-lhe as criptas elegantes e coroadas de longas folhas que distinguem as colunas serranas da catedral de Arles. 
                 Mas quando, depois de ter contado as palmeiras, lançou os olhos em volta de si, o mais terrível desespero se apoderou de sua alma. Via em torno um oceano sem limites. As areias enegrecidas do deserto se alongavam a perder de vista em todas as direções, e faiscavam como lâmina de aço refletindo uma luz viva. Mal sabia se aquilo era um mar de gelo, ou de lagos unidos como um espelho. Arrebatado pelas ondas, um vapor de fogo tumultuava por este solo movente. O céu apresentava um brilho oriental de uma limpidez desesperadora, porque nesses momentos nada deixa a desejar à imaginação. O céu e a terra estavam em fogo. O silêncio aterrava pela imponente e terrível majestade. O infinito e a imensidade comprimiam a alma em todos os sentidos: nem uma nuvem no céu, nem uma bafagem no ar, nem um acidente no meio da areia agitada por vagazinhas miúdas! finalmente, o horizonte terminava, como o do mar, quando está manso, com uma linha de luz tão nítida como o gume de um sabre.
                 O Provençal apertou o tronco de uma das palmeiras como se fosse o corpo de um amigo; depois ao abrigo da sombra tíbia e reta que a árvore desenhava sobre o granito, desatou a chorar, assentou-se e deixou-se ficar ali, contemplando com uma tristeza profunda a cena implacável que se abria a seus olhos. Gritou, clamou, como para interrogar a solidão. A voz, perdida nas cavidades da eminencia, produziu ao longe um som frouxo, que nem acordou os ecos; o eco era dentro do coração; o Provençal tinha vinte e dois anos, e engatilhou a carabina.  
                  - A todo o tempo é tempo! disse ele consigo, deixando ele no chão a arma libertadora.
                 Contemplando de vez em quando o espaço cinzento e o espaço azul, o soldado sonhava com a França. Escutava com delícias os regatos de Paris, lembrava-se das cidades por onde tinha passado, das fisionomias dos camaradas, e das mais leves circunstâncias de sua vida. Enfim, a imaginação meridional fez-lhe imediatamente representar os calhaus da querida Provença nos efeitos do calor que ondulava por sobre a superfície extensa do deserto. Receando todos os perigos desta cruel miragem, desceu pelo sítio oposto àquele por onde subira na véspera para a colina.  Teve uma grande alegria ao descobrir uma espécie de gruta, feita naturalmente pelos imensos blocos de granito que formavam a base deste montículo. Os restos de uma esteira deixavam conhecer que este asilo fora em tempo habitado.  A alguns passos de distância descobriu algumas palmeiras carregadas de tâmaras. Então o instinto que nos prende à vida, acordou-se-lhe dentro do coração. Teve esperança de viver o bastante para esperar pela passagem de alguns Maugabinos, ou, porventura, chegaria a ouvir o estrépido dos canhões; porque neste tempo Bonaparte percorria o Egito. Reanimado por este pensamento, o francês deitou abaixo alguns cachos de tâmaras maduras sob o peso dos quais as palmeiras pareciam vergar, e certificou-se, ao saborear este maná inesperado, que o habitador da gruta cultivara essas fruteiras. A polpa saborosa e fresca das tâmaras denunciavam, com efeito, os cuidados do seu predecessor. O Provençal passou subitamente de um desespero sombrio para uma alegria quase louca. Tornou a subir para o alto da colina, e ocupou-se durante o resto do dia a cortar uma das palmeiras infecundas, que, na véspera, lhe serviram de abrigo. Uma vaga recordação o fez lembrar-se dos animais do deserto; prevendo que poderiam vir beber na nascente perdida nas areias que borbotava ao sopé dos blocos da rocha, resolveu de se premunir contra aquelas visitas, colocando um atranco à porta de seu eremitério. Apesar de todo o ardor, apesar das forças que lhe deu o medo de ser devorado durante o sono, foi-lhe impossível cortar a palmeira em muitos pedaços nesse dia; ao menos conseguiu derrubá-la. Quando, ao cair da noite, caiu também essa rainha do deserto, o ruido da sua queda retumbou ao longe, e foi como um gemido soltado pela solidão; o soldado estremeceu como se ouvisse alguma voz predizer-lhe uma desgraça. Mas, como um herdeiro, que se não com padece por muito tempo com a morte de um parente, desejou aquela bela árvore das altas e largas folhas verdes que lhe servem de poético ornato,  para compor a esteira em que tinha de se deitar. 
                         Extenuado pelo calor e pelo trabalho, adormeceu debaixo da abóboda vermelha da sua gruta úmida. Lá pela noite adiante o sono foi-lhe perturbado por um ruído extraordinário. Sentou-se estremunhado, e o silêncio profundo que fazia deixou-lhe perceber o acento alternativo de uma respiração cuja selvagem energia não podia pertencer a criatura humana. Um profundo medo, aumentado de mais a mais pela obscuridade, pelo silêncio, e pelas fantasias do despertar, lhe gelaram o coração. Apenas sentiu a dolorosa contração dos cabelos quando, à força de dilatar as pupilas dos olhos, descobriu na sombra dois clarões frouxos e amarelados. Primeiramente atribuiu aquelas luzes a algum reflexo das suas meninas dos olhos; mas, imediatamente, a viva claridade do noite ajudando-o gradualmente a distinguir os objetos que se achavam na gruta, descobriu um animal enorme deitado a dois passos de si. O Provençal não tinha a suficiente  instrução para saber em que subgênero estava classificado seu amigo; o terror foi tão violento, quanto a ignorância lhe fez supor em globo todas as desgraças. Suportou o cruel suplício de escutar, de reparar nos caprichos desta respiração, sem nada deixar escapar, e sem ousar fazer o menor movimento. Um cheiro tão forte como o que exalam as raposas, porém mais penetrante, mais acre por assim dizer, tresandava na gruta; e quando o Provençal o cheirou, sentiu o cumulo de terror, porque já não podia por em dúvida a existência do terrível companheiro para quem o antro real seria de bivac. Para de logo os reflexos da lua que declinava para o horizonte aclararam a toca, fazendo insensivelmente reluzir a pele mosqueada de uma pantera. Esse grande leão do Egito dormia enroscado como um canzarão, sossegado, possuidor de uma camisola suntuosa à porta de um palácio; os olhos abertos por alguns instantes, tornaram-se a fechar.  Tinha o focinho voltado para o Francês. Mil pensamentos confusos passaram na alma do prisioneiro da pantera; primeiro que tudo lhe veio à cabeça matá-la com um tiro de carabina; mas conheceu que não havia bastante espaço entre si e ela para fazer pontaria, e o cano passava além do animal. E se o acordasse! A hipótese tornou-o imóvel.  Sentindo bater o coração no meio do silêncio, maldizia as pulsações fortíssimas que a afluência do sangue produzia, receando perturbar um sono que lhe permitia procurar um expediente necessário. Por duas vezes levou a mão à cintura com o desígnio de cortar a cabeça do seu inimigo; mas a dificuldade de cortar um pelo basto e duro o obrigou a renunciar o projeto atrevido. Se lhe falhasse? era morrer com toda a certeza, pensou o Provençal. Preferiu as incertezas de um combate, e resolveu esperar o dia. O dia despontou dali a pouco. Foi quando o Francês pode então examinar a pantera; trazia ainda o focinho sujo de sangue. - Ao que parece, comeu-lhe à larga!... pensou ele sem se preocupar se o festim fora de carne humana; a pantera não há de ter fome quando acordar. 
                    Era fêmea e fera. O felpo do ventre e das coxas era de uma alvura deslumbrante. Muitas e pequeninas salpicadelas, semelhantes a veludo, formavam lindos braceletes em volta das patas. A cauda musculosa era igualmente branca, mas terminada por anéis negros.  O alto do lombo, amarelo como ouro batido, mas liso e escorregadio, tinha essas mosqueadelas características, cambiadas em forma de rosas, que servem para distinguir as panteras das outras espécies de felinos.   
                      O tranquilo e temível hospede ressonava em uma  postura tão graciosa como a de uma gata deitada sobre o coxim de uma otomana. As patas sangrentas, nervosas e bem armadas, estavam estendidas adiante da cabeça que repousava em cima delas, donde se dividiam as barbas raras, hirtas, semelhantes a fios de prata. Se a pantera estivesse assim em uma jaula, o Provençal admiraria com uma certeza e graça dessa fera, e os vigorosos contrastes das cores vivas que davam à sua pele uma majestade imperial; neste momento porém sentia a vista perturbada com o aspecto sinistro. A presença da pantera, apesar de adormecida, fazia-lhe sentir os efeitos que os olhos magnéticos da serpente produzem, segundo se diz, no rouxinol.  A coragem do soldado veio a faltar-lhe por momentos diante deste perigo, ao passo que se sentiria com certeza exaltado ante a boca dos canhões vomitando metralha. Contudo, um pensamento intrépido resplandeceu em sua alma, e extinguiu na origem o suor frio que lhe corria da fronte.  Fazendo como homens que, forçados pela desgraça, chegam a desafiar a morte e se lhe oferecem aos golpes, o Provençal viu de repente uma tragédia nesta aventura, e resolveu representar nela a sua parte com honra até à cena final!
                    - Antes de ontem, talvez que os árabes me tivessem matado!... disse ele consigo. E considerando-se como morto, esperou com audácia e com uma inquieta curiosidade o despertar do inimigo. Quando o sol raiou, a pantera abriu subitamente os olhos; depois espreguiçou-se estendendo violentamente as patas, para dissipar as câimbras. Por fim abriu a boca, mostrando o aterrador aparelho dos dentes e da língua farpada, tão dura como um ralador. Ela é como uma namorada!... Pensou o Francês ao vê-la enrolar-se e fazer os movimentos mais doces e mais lascivos. Lambeu em seguida o sangue que lhe sujava as garras, o focinho, e coçou a cabeça com gestos repetidos, cheios de gentileza. 
                    - Bem!... Está fazendo um poucochinho de toucador!... disse o Francês, que recuperou o bom humor com a coragem; vamos agora dar os nossos bons dias. E empalmou o punhal curto que roubara aos Mougrabinos. 
                    Neste momento a pantera volveu a cabeça para o Francês e fixou-o sem avançar. 
                    A rigidez dos olhos metálicos e a insuportável claridade deles fizeram estremecer o Provençal, principalmente quando a fera caminhou para ele; contemplou-a com um ar carinhoso, empiscou-a como para magnetizar, e deixou-a aproximar até perto de si; depois com um movimento tão doce, tão amoroso como se quisesse acariciar a mais linda mulher, passou-lhe a mão por todo o corpo, da cabeça até ao rabo, arranhando com as unhas as flexíveis vértebras que repartiam o dorso amarelo da pantera. A fera estendeu volutuosamente a cauda, e os olhos adoçaram-se-lhe; e quando, pela terceira vez, o Francês acabou esta blandícia interesseira, ela soltou um desses rum-rum, com que os gatos exprimem o prazer; porém este murmúrio saia de umas fauces tão valentes e profundas, que reboaram na gruta como os últimos ruídos do órgão em uma igreja. O Provençal, compreendendo a importância de suas carícias, repetiu-as de maneira para desvairar e domar esta messalina imperiosa. Logo que conheceu que tinha extinguido a ferocidade  de sua caprichosa companheira, cuja fome fora desgraçadamente tão fartada na véspera, levantou-se e quis sair da caverna; a pantera deixou-o sair à vontade, mas quando descia já a colina, saltou com a ligeireza com que os pardais saltam de ramo em ramo, e veio roçar-se pelas pernas do soldado, arqueando o dorso, à maneira dos gatos. Depois, contemplando o hóspede com uns olhos cujo brilho se tornara menos inflexível, soltou esse grito selvagem que os naturalistas comparam ao ruído de uma serra.
                     Ela é exigente? exclamou o Francês sorrindo-se. 
                     E experimentou o brincar-lhe com as orelhas, esfregando-lhe o ventre e coçar-lhe fortemente a cabeça com as unhas. E, conhecendo o bom resultado, esgravatou-lhe o cranio com a ponta do punhal, calculando o instante de a matar; porém a dureza dos ossos lhe fez recear de o não conseguir. 
                     A sultana do deserto agradeceu a a habilidade do escravo erguendo a cabeça, alongando o pescoço, deixando ver o inebriamento pela tranquilidade da sua postura. O Francês lembrou-se de repente que para assassinar de um só golpe a temível  princesa era preciso apunhala-la no pescoço, e ergueu logo o ferro, quando a pantera, saciada sem duvida, se lhe deitou graciosamente aos pés  lançando de tempo em tempo olhares em que, apesar de um vigor nativo, se representava confusamente a benignidade.  O pobre Provençal comeu as suas tâmaras encostando-=se a uma das palmeiras; mas de quando em quando lançava um olhar investigador pelo deserto para ver se avistava alguns libertadores, e à sua terrível companheira para lhe espiar a incerta clemência. A pantera olhava para o sítio em que os caroços das tâmaras caiam, cada vez que o Provençal atirava algum, e os olhos então exprimiam-lhe um incrível desconfiança. Examinava o Francês com uma prudência  comercial; porém o exame foi-lhe favorável, porque logo que acabou o frugal repasto , a pantera lambu-lhe as botas, e com a língua forte tirou-lhe miraculosamente a poeira  encrustada nas vincas. 
                      - Mas logo que ele tiver fome? ... pensou o Provençal. Não obstante o estremecimento que lhe cousou esta ideia, o soldado começou a medir curiosamente as proporções da pantera, com certeza um dos mais belos exemplares da espécie, porque tinha três pés de altura e quatro de extensão sem contar com a cauda. Esta arma poderosa, redonda como um cacete, era quase de três pés de comprimento. A cabeça, grande como a de uma leoa, distinguia-se por uma rara expressão de finura; a fria crueza dos tigres predominava ali, mas tinha também uma vaga parecença com a figura de uma mulher artificiosa. Finalmente, a figura da rainha solitária revelava neste momento uma espécie de  alegria semelhante à de Nero embriagado; dessedentara-se com sangue e queria brincar. O soldado tentou andar para cá e para lá, a pantera deixou-o livre, contentando-se de seguir com os olhos, parecendo-se assim menos com um cão fiel do que com uma grande angora inquieta por tudo, até com os movimentos do seu senhor. Quando o soldado se voltou para o lado da fonte descobriu os restos do seu cavalo; a pantera tinha arrastado para ali os despojos. Dois terços, pouco mais ou menos, já tinham sido devorados. Este espetáculo asserenou o Francês. Foi-lhe fácil explicar-lhe a ausência da pantera, e o respeito que lhe catara durante o sono. Esta primeira felicidade o animava a tentar o futuro e chegou a conceber a louca esperança de viver de boa avença com a pantera durante o dia todo, não deixando escapar nenhum meio de cativar e conciliar as suas boas graças. Tornou para o pé dela, e teve a inefável felicidade de lhe ver sacudir a cauda com um movimento quase insensível. Sentou-se então sem temor junto dela, e puseram-se a brincar ambos; o Francês pegou-lhe nas patas, no focinho, estorcegou-lhe as orelhas, deitou-a de costas, e coçou rigidamente os vazios quentes e sensíveis. Deu-lhe licença para tudo; e quando o soldado quis alisar-lhe o pelo das patas, encolheu cuidadosamente as unhas recurvadas como cimitarras. O Francês que conservava uma mão sobre o punhal, pensava em enterrá-lo no ventre da confiadíssima pantera; mas tinha medo de ser imediatamente estrangulado pela última convulsão que a agitasse. De mais a mais, sentia no imo do coração um remorso, que mandava respeitar uma criatura inofensiva.     Parecia-lhe ter achado uma amiga neste deserto sem limites. E pensou imediatamente na sua primeira amante, a quem chamava pequenina,  por antífrase, porque era de um tão atroz ciume, que durante o tempo que durou essa paixão teve sempre a temer o punhal com que sempre o ameaçou. Esta recordação da mocidade sugeriu-lhe a ideia de fazer dar por este nome a jovem pantera cuja agilidade, graça e languidez admirava agora com menos medo. 
                    Pelo fim do dia já estava familiarizado com a sua situação perigosa, e quase que amava as emoções. Finalmente a companheira acabara de tomar o hábito de olhar para ele quando lhe chamava com voz de falsete: pequenina. 
                    Ao declinar o sol, Pequenina fez ressoar muitas vezes um grito profundo e melancólico. 
                    - É muito bem educada! pensou o folgazão soldado; está dizendo suas orações!... Mas este gracejo mental só lhe veio ao espírito quando notou a postura ossífica em que permanecia a sua camarada.  Vamos, minha loirinha,  deixar-te-hei deitar primeiro, disse o soldado, fiando-se na atividade das suas pernas para se evadir o mais depressa possível logo que a pilhasse adormecida, para ver se descobria outro covil durante a noite. O soldado esperou com impaciência o instante da fuga, e quando chegou, desfilou vigorosamente na direção  do Nilo; apenas andado um quarto de légua nos areais, quando ouviu a pantera que se arremessava atrás dele, soltando de vez em quando esse grito de serra, ainda mais aterrador  do que o estrépito dos seus saltos. 
                    - Que tal esta! disse o soldado, tomou-me amizade!... Esta pantera nova ainda não encontrou ninguém, e é uma vaidade o gozar os seus primeiros amores. Neste momento o Francês caiu em um desses areais moventes tão temíveis para os viajantes e de que é impossível o salvar-se. Sentindo-se escorregar, soltou um grito de aflição, e a pantera agarrou-o com os dentes pela roupa, e, saltando com vigor para trás, tirou-o do abismo como por magia. 
                    - Ah, Pequenina, exclamou o soldado acariciando-a com entusiasmo, agora um para o outro, para a vida e para a morte. Mas nada de brincadeiras! 
                    E tornou a caminhar para trás. 
                    O deserto desde então pareceu-lhe povoado. encerrava uma criatura a quem o Francês podia falar, e cuja ferocidade se adoçara para ele, sem que pudesse explicar as razões desta incrível amizade. Por mais poderoso que fosse o desejo do soldado de se não deitar, e de estar de mira, sempre adormeceu. Ao acordar já não encontrou a Pequenina; subiu para a colina, e ao longe descobriu-a retoiçando, segundo o costume destes animais, cuja extrema flexibilidade da coluna vertebral lhes veda a carreia. Pequenina chegou com as belfas sujas de sangue, recebeu as necessárias carícias que lhe fez o companheiro, participando-lhe com seu grave rum-rum quanto estava feliz. Os olhos cheios de blandicia volveram-se com mais doçura do  que na véspera para o Provençal, que lhe falava como se fosse a um animal doméstico. 
                      - Ah, ah! donzelinha, visto que sois uma recatada menina, não é assim? Vedes isto? ... Todos gostamos de ser amimados. Não tendes vergonha? Então comeste algum Maugrabino? Está bom!... são animais como vós outros!... Mas nada de devorar algum Francês... quando não, deixo de te amar! 
                      A pantera brincou como um cãozinho brinca com seu dono, deixando-se rolar, bater e afagar de vez em quando; às vezes provocava o soldado avançando a pata para ele, com um gesto solicitador. 
                      Passaram-se alguns dias assim. Esta companhia permitiu ao Provençal o admirar as sublimes belezas do deserto. No momento em que tivesse instantes de temor e de tranquilidade, alimento, e uma criatura em quem pensar, estes contrastes agitavam-lhe a alma... Era uma ida cheia de aparições. A solidão revelou-lhe todos os arcanos, envolveu-o com todos os seus encantos. Descobriu no erguer e no por do sol espetáculos desconhecidos de toda a gente. Soube estremecer ouvindo por sobre a cabeça o doce silvo das asas de um pássaro, raro passageiro, vendo as nuvens confundirem-se, viajantes coloridas e mudáveis! Estudou durante a noite os efeitos da lua sobre o oceano das areias, onde o simum produzia as vagas, as ondulações e rápidas mudanças. 
                      Viveu com a luz do Oriente, e admirou-lhe as pompas maravilhosas; e muitas vezes, depois de ter gozado do terrível espetáculo de um vendaval nestes plainos, onde as areias levantadas produzem cerrações vermelhas e secas, nuvens mortais, via vir a noite com delícias, porque então descia o benfazejo frescor das estrelas. Ouvia músicas imaginárias no céu. A solidão ensinou-lhe a desdobrar os tesouros do devaneio. Passava horas inteiras a lembrar-se de nadas, a comparar a sua vida passada com a presente. Em suma, apaixonou-se pela pantera; era-lhe tão precisa uma afeição! Ou porque a sua vontade, poderosamente projetada, modificasse o caráter da companheira, ou porque ela tivesse encontrado uma alimentação abundante, graças aos combates que se davam então nestes desertos, a pantera respeitou a vido do Francês, que acabou por não desconfiar mais vendo-a tão bem domesticada. Empregava a maior parte do tempo a dormir, mas via-se obrigado a velar, como uma aranha no centro da teia, para não deixar escapar o momento do livramento, se é que alguém passasse na esfera descrita pelo seu horizonte.  Rasgara uma camisa para fazer uma bandeira arvorada no alto de uma palmeira desfolhada. 
                    Aconselhado pela necessidade, soube descobrir o modo de conservar a bandeira estendida por meio de varinhas, porque podia acontecer que o vento não a agitasse no momento em que o viajante esperado contemplasse o deserto... 
                   Durante as longas horas em que abandonava a esperança, é que se divertia com a pantera. Acabara de conhecer as inflexões da sua voz, a expressão dos seus olhares, estudara o capricho de todas as pintas que mosqueavam o amarelo da sua pele. Pequenina nem sequer dava sinal, quando o soldado lhe pegava na cauda e no penacho que a terminava para contar-lhe os anéis negros e brancos, ornamento gracioso, que reluzia de longe ao sol como se fossem pedrarias. Sentia prazer em contemplar as linhas flácidas e finas dos contornos, a brancura do ventre, a graça da cabeça. 
                   Mas, principalmente quando ela retouçava, é que a contemplava à vontade; e a agilidade, a juvenilidade dos seus movimentos o surpreendiam sempre; admirava a flexibilidade quando saltava, se  apajava, escorregava, se encurvava, se agarrava, se enrolava, enrodilhava, ou atirava estonteadamente. Por mais rápido que fosse o ímpeto, por mais escorregadio que fosse o bloco de granito, suspendia-se repentinamente a esta palavra: "Pequenina..."
                   Um dia, por um sol esplêndido, um imenso pássaro librou-se nos ares. O Provençal deixou a sua pantera para examinar o novo hospede; mas depois de um momento de  espera, a sultana abandonada remurmurejou surdamente. 
                    -  Parece-me, assim Deus me salve, que ela tem ciumes, exclamou o soldado vendo os olhos tornarem-se-lhe ríspidos. A alma de Virginia teria com certeza passado para aquele corpo. A águia desapareceu no espaço enquanto o soldado admirava a anca arredondada da pantera. Tinha tanta graça e vaidade nos seus contornos! Era como se fosse uma mulher bonita. A loira pele que vestia combinava com cores finas aos tons do branco baço que distinguia as coxas. A luz profusamente espalhada pelo sol fazia brilhar este ouro vivente, estas manchas cinzentas, de modo que dava encantos indefiníveis. O Provençal e a pantera entre-olharam-se com um ar inteligente, a pantera estremeceu quando ela sentiu as unhas do seu amigo coçarem-lhe o cranio, os olhos reluziram como dois relâmpagos, e depois fechou-os fortemente. 
                    - Ela tem alma... disse o soldado estudando a tranquilidade desta rainha dos areais, doirada como eles, branca como eles, solitária e ardente como eles... 
                    - Está bom! disse-me a interlocutora, li as ossas alegações a favor das feras; mas como é que duas pessoas tão adequadas para se compreenderem vieram a acabar?... 
                    - Ah! Foi assim!... Acabaram como acabam todas as grandes paixões, por um mal entender. Duma parte e de outra julgam que há traição, não se explicam por melindre,  arrufam-se por pertinácia. 
                    - E às vezes nos mais belos momentos, disse ela; um olhar, uma exclamação basta. Pois bem! agora falta acabar a história. 
                    - É horrivelmente difícil, mas apesar disso compreendereis o que me tinha já confiado o velho veterano quando, levando à glória uma garrafa de vinho de Champanhe, exclamou: 
                    - Não sei que mal lhe causei, mas a pantera voltou-se como se estivesse enraivecida; e, com os dentes aguçados me mordeu a coxa, levemente por ventura. Eu cá, julgando que me queria devorar, enterrei-lhe o punhal no pescoço. A pantera rolou soltando um grito que me gelou o coração, e vi-a nas vascas da agonia contemplando-me sem cólera. Quisera por tudo quanto há no mundo, pela minha cruz, que ainda não me condecorava, restituí-la à vida.  Era como se eu tivesse assassinado uma pessoa verdadeira. E os soldados que tinham visto minha bandeira e que correram em meu socorro, encontraram-me lavado em lágrimas.
                     - Ora bem, Senhor, replicou ele após um momento de silêncio, depois fiz a guerra da Alemanha, da Espanha, da Rússia, da França, arrastei por bastantes partes este arcaboiço, e nada vi semelhante ao deserto... A! é que aquilo é belo. 
                     - O que é que sentireis ali?... perguntei-lhe eu. 
                     - Oh! isso não é coisa que se diga em palavras. Demais a mais, nem sempre tenho saudade do meu ramo de palmeira e da minha pantera... é preciso que seja triste por cusa disso. No deserto, olhai, há tudo e não há nada... 
                     - Mas, explicai-me? 
                     - Está bom, replicou ele deixando escapar um gesto de impaciência, é Deus sem os homens... 
Honorato de Balzac 

BREVE BIOGRAFIA
              Honorato de Balzac (Honoré de Balzac), romancista francês, nasceu em Tours a 16 de Maio de 1799 e morreu em Paris a 18 de Agosto de 1850. Fez os seus estudos no Colégio Vendome, onde cursou leis. Durante muito tempo viveu em Paris pobremente, mas ao fim de dez anos as suas obras começaram a ser apreciadas, dando-lhe a celebridade. Entre grande número de romances, a maior parte dos quais reunidos sob o título genérico de Comédia Humana, Publicou Le dernier Chouan ou la Bretagne em 1800 - em 1829;  La physiologie du mariage ( 1830); La femme de trente ans (1831); Eugene Grandet (1833); Le Père Gorlot (1837); Historie de la grandeur e de la Décadance de Cesar Birotteau (1838); Mémories de deux jeunes mariees (1842); Une tenebreuse affaire (1843); Modeste Mignon (1844); Une passion dans le desert (Que é esta história aqui traduzida para o português); La cousine Bette; Le coisin Pons; e Les paysans, etc.  Em 14 de Março de 1850 casou com Madame Hanska, de uma nobre família polaca, a quem cortejava há muito tempo. Depois de uma viagem à Áustria, Itália e Rússia, regressou a Paris, morrendo pouco depois. Balzac é considerado o chefe da escola realista dos romancistas franceses. 
Nicéas Romeo Zanchett