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domingo, 16 de junho de 2013

ROMEU E JULIETA - Por Shakespeare


ROMEU E JULIETA 
Por Shakespeare 
 CENA: Jardim de Capuleto. 

                     ROMEU  (entrando) - Só se ri das feridas quem nunca sentiu as dores dos ferimentos. (Aparece Julieta à sua janela.) Mas...silêncio! Que luz será aquela que jorra através desta janela? Esta janela é o oriente; Julieta o sol. Ergue-te, oh astro de beleza, faze desaparecer a lua que tem inveja de ti! Vês como estás doente? como está pálida de pesar, porque tu, sendo quem a substituís, és mais bela do que ela? não a quereis substituir, já que tão invejosa é! As roupagens do vestal são macilentas e descoradas; Somente as imbecis as usam; deita-as fora. És a minha amada! És o meu amor! assim pudesses tu saber quem és! falas e nada dizes! quem me dera saber o que isto quer dizer! O teu olhar é que fala, vou responder-te. Sou ousado de mais; não é para mim que ela fala; duas das mais belas estrelas de todo o firmamento, quando são forçadas a retirar-se, suplicam aos olhos da minha amada que brilhem em vez delas nas esferas até que voltem.  E, se por acasa os teus seus olhos estivessem agora nessas esferas e as estrelas na sua fronte? Não,  o esplendor do seu rosto envergonharia as estrelas da mesma forma que um dia claro faria envergonhar uma lâmpada; se os seus olhos estivessem no céu, relampejaria nos ares tal claridade que as aves cantariam, cuidando que não havia noite. Oh! como ela encosta a face à sua mão. Quem me dera ser a luva onde a sua face se encosta.
                    JULIETA - Ai de mim!
                     ROMEU - Fala! oh! continua a falar, anjo resplandecente! Aí onde tu estás, por sobre a minha cabeça, pareces também um resplendor no meio desta noite, mensageira alada e celestial perante os olhares admiradores dos mortais! Quando se erguem para o céu tem de esconder a iris nas  pálpebras, tal é a altura e que devem dirigir-se para te contemplar, enquanto perpassa rápido por entre nuvens indolentes e navega no seio do firmamento...
                     JULIETA - Romeu! Romeu! Porque és tu Romeu? Renega o teu pai, muda de nome; se não queres fazer isto, jura amar-me e deixo eu de ser Capuleto. 
                      ROMEU - Deverei eu ouvir ainda ou dar-me a conhecer? 
                      JULIETA - Só o teu nome é que é meu inimigo. Apesar de tudo não és um Montecchio, és tu e só tu. E que vem a ser um Montecchio? nem a mão, nem o pé, nem o braço, nem rosto, nem qualquer outra parte de corpo humano. Oh! muda de nome! mas o que é que existe num nome? A flor a que chamamos roa, deixa de ter perfume se lhe dermos outro nome? Romeu, ainda mesmo que não se chamasse Romeu, nem por isso deixaria de ser tão perfeito como é. Renuncia a esse nome, Romeu, e em vez dele que não faz parte da tua existência, apodera-te de mim que sou tua. 
                      ROMEU - Aceito: chama-me unicamente teu amor, batizo-me de novo e de ora avante já não quero ser Romeu.
                      JULIETA - Quem és tu que, protegido pela noite, assim  vens surpreender os segredos da minha alma? 
                      ROMEU -  Não sei de que nome hei de servir-me para te dizer quem sou; o meu nome, ó minha santa querida, é-me tão odioso por ser teu inimigo  que se ele estivesse escrito num papel eu rasgava-o.
                      JULIETA - Apesar de serem bem poucas as palavras que tem ecoado nos meus ouvidos pronunciadas por esta vós, reconheço-a. Não és tu, Romeu de Montecchio? 
                      ROMEU - Nem Romeu, nem Montecchio, se qualquer desses nomes te desagrada. 
                      JULIETA - Como pudeste aqui vir, dize-mo? e para que vieste? Os muros deste jardim são altos e difíceis de escalar. este lugar será mortal para ti, se qualquer dos meus parentes der contigo. 
                      ROMEU - Transpus estas muralhas com as asas do amor que são leves, porque as barreiras de pedra não podem embarcar os voos do amor. O que é que o amor quer, que não consiga? os teus parentes podem lá servir-me de obstáculo? 
                      JULIETA - Se te virem, és morto. 

                      ROMEO - Ai! Julieta, há mais perigo nos teus olhos do que em vinte das suas espadas. Basta que desças um desses tenos olhares para mim, que eu fico bem escudado contra a sua inimizade.  
                      JULIETA - Por nada deste mundo desejaria que eles te vissem aqui. 
                      ROMEU - Agasalha-me o manto da noite, que me esconde da vista deles. Se me não amas, que me importa que me encontrem aqui? Antes queria que o seu ódio pusesse fim à minha vida, do que a morte tardar sem teu amor. 
                      JULIETA - Quem te ensinou este caminho? 
                      ROMEU - O amor excitou-me a descobri-lo; deu-me conselhos e eu emprestei-lhe os meus olhos. Eu não sou piloto, mas se tu estivesse afastada na mais longínqua praia do mar, eu aventurar-me-ia a ir ter contigo. 
                      JULIETA - A máscara da noite vela-me o rosto; se não fosse isso, nas minhas faces virginais verias o rubor que as palavras que eu ha pouco proferi, causaram. Bem queria eu guardar as conveniências; bem desejaria negar o que disse, mas, adeus, acabaram-se as cerimônias. Amas-me? sei que vais dizer que sim; ficas preso por essa palavra; contudo se juras podes tornar-te um perjuro. Dizem que Júpiter acha muita graça aos perjúrios dos amantes. Querido Romeu, se me amas, declara-mo lealmente; se pensas que fui fácil de conquistar, serei cruel, carregarei o meu sobrecenho, dir-te-ei não, para te dar ensejo a que me conquistes; doutro modo por nada deste mundo o farei. A verdade, belo Montecchio, é que estou muitíssimo apaixonada por ti; portanto podes julgar o meu comportamento leviano, mas acredita que mostro-me sincera, porque não sou como as outras que usam de artifícios para serem reservadas. É possível que fosse mais reservada, confesso-o, se, ha pouco, não tivesse surpreendido as expressões apaixonadas do meu sincero amor. Perdoa-me, não interpretes esta facilidade como leviandade deste amor, que esta tenebrosa noite assim te revelou. 
                      ROMEU - Senhora, juro-te por essa lua encantadora que lá em baixo toca com una das extremidades de prata o cimo daquelas árvores... 
                      JULIETA - Não jures pela lua, pela lua inconstante que  todos os dias muda de figura na sua órbita; tenho medo que o teu amor se mostre tão inconstante como ela. 
                      ROMEU - Pelo que jurarei eu, então? 
                      JULIETA - Não jures por nada deste mundo; mas se quiseres jurar, jura pela tua graciosa pessoa, divindade do meu coração idolatrada, porque eu creio em ti. 
                      ROMEU - Sê este bendito e querido amor do meu coração...
                      JULIETA - Basta, não jures. Ainda que a minha alegria de ti dimane  não posso nesta noite gozar  de todas as alegrias da nossa entrevista. É muito temerária, é muito precipitada,  é muito repentina. Parece-se com o relâmpago que desaparece antes mesmo que se possa dizer; como brilha! Terna e benfazeja noite! este botão de amor, prestes a desabrochar com o hálito quente do estio, talvez ainda o vejamos aberto em flor esplêndida no nosso próximo encontro. Boas noites! e que a paz e felicidade  tão meigas que enchem meu peito desçam ao teu coração. 
                     ROMEU - Oh! e vais me deixar assim sem me dizeres mais nada? !
                     JULIETA - Que mais queres que te diga? 
                     ROMEO - Jura amar-me como eu te amo. 
                     JULIETA - Dei-te o meu amor antes que tu o pedisses e assim eu pudesse ter deixado de to dar. 
                     ROMEU -  Por que? Querias retirar-mo? 
                     JULIETA - Não. Queria continuar a oferecer-to, mas o que eu desejo é a ventura que já tenho; a minha generosidade é tão limitada como é o mar, tão profunda como ele; quanto mais te amo tanto mais amor tenho para te dar, porque é infinito. (A ama chama de dentro). Ouço passos lá dentro. Adeus, meu querido amor! - Já lá vou, ama! Delicado Montecchio, sê fiel. Espera por mim somente alguns minutos; eu venho já. (Sai da janela).
                      ROMEU - Oh! noite venturosa! oh! noite feliz! Que medo tenho por ser de noite que tudo isto não passe dum sonho! Oh! como isto é delicioso para ser real...
                      JULIETA - (aparece na janela) - Três palavras, querido Romeu, por esta vez. Se o caráter do teu amor é o da honra, se tem por fim o casamento, manda pela pessoa que eu te enviar uma palavra que me indique onde e quando queres que a cerimônia se  efetue e eu deporei a teus pés todo o meu destino e seguir-te-ei através do mundo inteiro como meu senhor.
                      AMA (dentro) - Menina... 
                      JULIETA - Já lá vou. - mas se as tuas intenções são outras, imploro-te nesse caso que me não persigas mais e me deixes entregue à minha dor. Amanhã mandarei...
                      ROMEU -  Espero por isso como espero pela salvação da minha alma. 
                      JULIETA - Muito boa noite. (Sai da janela). 
                      ROMEU - Muito péssima noite, porque me falta a tua luz! O amor corre para o amor como os rapazes da escola deixam os livros; mas o amor deixa o amor, pelo contrário, como os rapazes vão para a escola com semblante aflito. 
                      JULIETA - (aparece à janela) - Romeu! oh! Romeu! Quem me dera ter a voz dum falcoeiro, para fazer voltar  para trás a este gentil fidalguinho. A escravidão tem a voz fraca, não pode falar alto; se não fosse isso acordaria Echo a dormir decerto na caverna, e a sua vós aérea tornar-se-ia mais rouca ainda que a minha, à força de repetir-me o nome do meu Romeu. 
                      ROMEU - É a minha alma quem pronuncia o meu nome! com que terno e argentino timbre ressoa a vós dos amantes durante a noite! Não há música mais sonora do que esta. 
                      JULIETA - Romeu...
                      ROMEU - Queridíssima...
                      JULIETA - A que hora te posso mandar procurar? 
                      ROMEU - Às nove horas. 
                      JULIETA - Não há de haver falta. Daqui até esse momento são vinte anos que passam! Já me esqueci porque te chamei. 
                      ROMEU - Permite que me demore aqui até que tu te recordes. 
                      JULIETA - Far-me-ei esquecida para te demorares, porque só me lembro do amor que tenho à tua companhia. 
                      ROMEU - E eu fico pata te fazer esquecer ainda que não tenho outra habitação do que este jardim. 
                      JULIETA - É quase madrugada; desejaria que tivesses partido, mas sem ser para muito longe, tal qual o passarinho que uma criança a brincar deixa voar um pouco para fora da mão - pobre prisioneiro envolto no laço -, mas prendendo-o com um fio de seda, tão carinhosamente ávida ela é da liberdade que lhe concede!
                      ROMEO - Era como esse passarinho que eu desejaria ser. 
                      JULIETA - Também eu; mas seria capaz de te matar à força de carinhos. Boas noites! Boas noites! A separação é uma dor tão silenciosa que eu direi boas noites, até amanhã. (Retira-se da Janela). 
                      ROMEU - Que um sono sossegado desça sobre teus olhos! que a paz acaricie teu seio! Quem me der ser esse sono e essa paz para gozar um tão terno descanso! Vou ter com o meu confessor para lhe pedir o seu auxílio e confiar-lhe a minha ventura. (Sai).    

SENA: A CELA DE FREI LOURENÇO 
Entram Frei Lourenço e Romeo 
                   FREI - Queira Deus que os sorrisos do céu baixem favoravelmente sobre este santo ato e que o futuro não traga desgostos de que haja arrependimento. 
                   ROMEU - Amem! Amem!, mas venham os desgostos que vierem, podem contrabalancear as alegrias que a vista da minha Julieta me dá dentro em breve? Unidas as  nossas mãos pelo santo sacramento, que venha a morte, assassina do amor, fazer o que ela quiser; já é bastante poder chamar-lhe minha.
                   FREI - Esses transportes violentos tem fins violentos; morrem no meio do seu triunfo como o fogo e a pólvora que se consomem logo que se beijam. O próprio mel, que é tão doce, enjoa por causa da sua doçura; faz perder o apetite por causa do seu sabor; amai-vos, mas com moderação; só assim é que o amor dura por muito tempo. Quem caminha a correr muito, chega tão tarde como quem caminha de vagar. Aí vem a vossa Julieta. Oh! com certeza não é com aquelas passadas que as pedras das calçadas  se gastarão. Um amante poderia talvez caminhar sobre teias de aranha, que a brisa do estio faz oscilar com vagar, e sem cair, tão leve é a vaidade! 
                    JULIETA (entrando) - Boas tardes, meu santo confessor. 
                    FREI - Romeu te agradecerá por mim e por ele, minha filha. 
                    JULIETA - E eu agradecerei por nós os dois, pois que sem isso os seus agradecimentos não seriam pagos. 
                     ROMEU - Ah! Julieta! se a tua alegria se medir pela minha, e se tens mais recursos do que eu para pintá-la, perfuma então com o teu hálito o ambiente que nos cerca e que a tua rica voz descreva a imagem da ventura que as nossas duas almas recebem nesta inolvidável entrevista. 
                     JULIETA - A alma é mais rica de sentimentos do que de palavras; tira o orgulho da sua essência, e não de vãos ornatos; os indigentes, esses, podem contar as ruas riquezas; mas o meu amor chegou a um tal excesso que eu não posso contar metade da soma das minhas. 
                     FREI - Vinde, vinde comigo; em breve podereis estar  sós, quando a santa Igreja vos abençoar e fizer de vós uma só e única pessoa. (saem).



CENA: QUARTO DE JULIETA
Entram Romeu e Julieta. 
                    JULIETA - Então queres já partir? Ainda é tão cedo! É o rouxinol e não a cotovia que te assustou; ele canta toda a noite acolá em baixo naquela romãzeira; podes crer que foi o rouxinol. 
                    ROMEU - Ola que foi a cotovia madrugadora e não o rouxinol; repara para aquelas listras de luz que para as bandas do oriente enlaçam as nuvens; os fachos da noite já estão gastos, agora é o dia que já pousa a ponta do seu pé na crista das montanhas brumosas. Ou tenho de partir e viver, ou ficar e morrer. 
                    JULIETA - Aquela luz lá ao fundo não é a luz do dia, eu bem o sei. É qualquer meteoro que o sol exala para te servir esta noite de luzeiro e alumiar-te o caminho de Mântua; não partas já, fica ainda mais um instante. 
                    ROMEU - Ou preso ou morto sou feliz, se tu assim o determinares. Direi de boa mente que o clarão pardacento que vejo lá ao fundo não é o olhar da madrugada, mas o pálido reflexo da fronte de Cynthia; direi que não é a cotovia que gorjeia aquelas notas agudas, que acoam na celeste abobada, que tão alta cobre as nossas cabeças; o meu desejo será ficar, sem vontade nenhuma de partir . Vem morte, sê bem-vinda! Julieta assim o deseja. Alma minha, que dizes tu? conversemos, não é dia ainda...
                    JULIETA - É, é! Parte, foge, foge depressa. É, sim, a cotovia que canta. Não ouves que notas discordantes e tão ásperas? Há quem diga que a cotovia canta muito bem; mas isto não é verdade, porque é ela quem nos separa; dizem outros que a cotovia e o feio sapo trocaram os seus olhos; antes trocassem a vós, porque o canto da cotovia  arranca-nos dos braços um do outro e expulsa-te daqui com os seus gorjeios, saudando o dia! Parte, parte já que a luz do dia cresce cada vez mais.
                    AMA (entrando) - Menina! 
                    JULIETA - Que é? 
                    AMA - A senhora sua mãe vai aí; já é dia. Tenha cautela, tenha cautela. (Sai).  
                    JULIETA - Oh! janela, deixa entrar o dia, para que saia a vida minha! 
                    ROMEU - Adeus! mais um beijo! Já desço. (Desce).
                    JULIETA - Então assim me deixas, meu senhor! meu amor! meu esposo, meu amigo! Preciso saber de ti todos os dias, a todas as horas, porque num minuto há muitos dias. Oh! nesse lapso de tempo já estarei velha, quando tornar a ver o meu Romeu! 
                    ROMEU - Adeus! não deixarei nunca de te mandar notícias minhas sempre que possa. 
                     JULIETA - Não nos tornaremos mais a ver? 
                     ROMEU  - Creio bem que sim, e todas estas desventuras hão-de servir de tema para as nossas conversas em dias melhores. 
                     JULIETA - meu deus! a minha alma está cheia de pressentimentos funestos! Estás-me a parecer tanto em baixo, que te vejo como um cadáver no  fundo duma tumba! Ou a minha vista me engana, ou tu estás tão pálido...
                     ROMEU - Também a mim me pareces pálida; é porque os desgostos bebem o nosso sangue. Adeus! Adeus!


                    BREVE BIOGRAFIA DE SHAKESPEARE
                    Guilherme Shakespeare, poeta e o maior dramaturgo inglês, nasceu em 23 de abril de 1564. Por volta do ano 1587 foi para Londres onde fez parte, como um dos principais atores da melhor companhia que ali havia. Em 1610 retirou-se do palco para ir viver em Stratford, onde  morreu a 23 de abril de 1616. Portanto, morreu no dia de seu aniversário, aos 52 anos. Em 1589, pouco mais ou menos, escreveu algumas comédias de colaboração, mas quatro anos depois começou a trabalhar só, refundindo as peças apenas com a parte que lhe pertencia. A sua primeira obra foi "Love's Labour Lost" (O trabalho do amor perdido), 1589, e a última "King Henry VIII", 1613. A lista intermediária é muito longa. Entre os seus poemas figuram: "Venus and Adonis"; "The Rape of Lucrece"(O rapto de Lucrécia); "A Lover's Complaint" (Queixa dum amante), e "Sonnetes". 
 Nicéas Romeo Zanchett


sexta-feira, 14 de junho de 2013

A FESTA DAS CRIANÇAS - Por Eça de Queiroz



A FESTA DAS CRIANÇAS 
Por Eça de Queiroz 
                  A mais engraçada festa das crianças de que me lembro, foi na Inglaterra na casa de campo dos meus amigos Birds, no país de Cornwall. (Condado da Inglaterra). Era uma mascarada reproduzindo em miniatura a côrte de el-re- Arthur e dos cavaleiros da Távola Redonda. E o que tornava interessante a ressurreição deste mundo heroico e gentil, popularizado por Tennison, é que nós estavamos ali justamente na região de Cornwall, onde vivia, entre saraus e batalhas, Arthur e sua rainha Guinevra e os doze valentes de Távola. A pouca distância do parque dos Birds, numa colina coberta de carvalheiras, a tradição coloca os paços de Arthur e a maravilhosa e sombria cidade de Caerleon. O rio em que pescavam trutas era o velho Usk. nas suas frescas margens erguera-se outrora o mosteiro, onde o irmão de Percival, uma noite, da janela da sua cela, viu passar numa nuvem cor de rosa, entre aromas de junquilhos, o vaso do Santo Graal cheio de sangue de Nosso Senhor Jesus Cristo.  E das varandas da sala de jantar, podiam avistar-se em dias claros, lá ao longe, na costa, e entre as rochas, as ruínas desse castelo de Tintagil, que aparece em todas as batalhas do rei Arthur, negro e triste junto ao mar de Cornwall. 
                   A côrte começou a reunir-se cedo, à hora do lunch, no grande salão branco, sobre o jardim. Era o filho dos Birds quem esplendidamente recebia, vestido de rei Arthur. O primeiro pérsonagem da lenda que chegou, acompanhado pela sua governante, foi o feiticeiro Merlino, um adorável bebê, gordo embezerrado, com a coroa de hera, uns cabelos loiros e umas enormes barbas proféticas enchendo-lhe a bochecha cor de rosa. Depois, seguidos das mamães, vieram entrando todos os outros figurões da romântica choronica, cavaleiros de cinco anos armados e emplumados, mongezinhos nédios bispos quase de mama com os seus baculos no braços, bardos rabugentos, mesteirais vestidos de seda, e fadas mais lindas que as fadas. As três rainhas místicas do Walhalla chegariam por último, gravezinhas,  todas três pela mão, cobertas de véus negros, escoltadas por um grande lacaio empolado. 
                     Pouco a pouco o salão ficou animado como a velha Caerleon numa manhã de torneio. O pequeno Bird, de Rei Arthur, com seu manto bordado de ouro, os cabelos frisados saindo em anéis de sob a coroa carregada de pedras, passeava majestoso, entre os seus irmãos  de armas. Uma senhora, encantada, quis dar-lhe um beijo. Ele repeliu-a asperamente, como teria feito o casto rei Arthur. Mais orgulhoso do que ele, só o bravo Lancelote do Lago, a quem tinham pintado um buço, e que revestido de armas negras, com uma longa pluma escarlate ondeando-lhe desde o elmo até às esporas de ouro, não tirava a mão da espada. E oque parecia ensoberbecê-lo mais, er a sua faixa de gaze branca, passada sobre a couraça, e feita em rígida obediência à epopeia, de um véu de rainha Guinerva. Essa era a grande beleza do sarau, a rainha Guinerva, uma irlandesinha com tranças negras e os olhos verdes como os prados de Erin. Séria e fria, envolta na pesada capa de cetim azul, conservava-se no meio de um sofá, imóvel, com um sorriso, que lhe punha uma covinha no queixo, indiferente aos madrigais, insensível às proezas  dos cavaleiros, e sempre de olhos baixos, ou por ela os bardos firam as arpas, ou por ela se batam os vassalos junto ao mar de Cornwall.  
                    Um escudeiro anunciou o lunch (merenda ou almoço), tocando uma busina de prata, tal qual como em Carleon. E pelo corredor, aos pares, toda a côrte seguiu à sala de jantar o rei Arthur, que levava pela mão, com uma graça solene, a linda rainha  Guinevra. Depois, mas não sem alguma confusão, em que necessariamente as mamães tiveram de ser enérgicas com os cavaleiors, ficou completa a Távola Redonda, ornada de baixelas e flores. E nada faltava do que mandam as poéticas crônicas. 
                     Ao fundo da mesa, na sua cadeira esculpida pelos Gênios, lá se achava o velho feiticeiro Merlino, a quem a governante, para ele comer com limpeza a sua sopa, tirara as barbas proféticas. Não havia um javali assado sobre um prato de ouro. Apenas um modesto roast-beff. Mas o rei Arthur levantava o seu copo de água, misturada de uma gota de Bordeaux, com a nobreza com que o outro, ha bastante centos de anos e naquela mesma colina, erguia a taça de hidromel em dias de vitória. De resto a sala, com o seu teto de carvalho lavrado, tinha o severo aparato doutras eras e através da janela lá estavam, como nos versos da "Morte de Arthur", as ruínas do Castelo de Tingagil, negro e triste junto ao mar de Cornwall. 
                     A côrte mostrava tanto apetite como à volta duma batalha aos lobos nos bosques, que avizinham o Usk. Até as fadas devoravam. Sir Galahad, esse que possuía a força de mil, porque o seu coração era virgem, já por duas vezes reclamara pudim de batatas, batendo furiosamente com o garfo sobre o seu murrião de prata, posto ao lado da mesa entre os cristais. 
                     Fora prciso, por causa da sua magnífica túnica de cetim verde, atar um guardanapo ao pescoço do cavaleiro Bors, essa radiante flor de bravura cristã. No meio de toda a alegria o forte Percival, incomodado com a sua armadura, permanecia manso e corado com ar de estar penando (como o outro Percival) em se recolher ao mosteiro de Wik. Depois, de repente e inexplicavelmente, rolou abaixo da cadeira, entornando todo o molho nos joelhos do intrigante Modred, o mais violento cavaleiro da Távola. 
                    Modred despropositou e arrepelou os cabelos de ouro de Percival. A tia do herói acudiu assustada, e então, como o famoso Lancelote do Lago se estava tornando turbulento, foi arrancado da Távola Redonda ignominiosamente, nos braços dum escudeiro, aos berros. 
                    Depois do lunch, a côrte del-rei Arthur voltou ao sarau a regozijar-se com danças. Sarau delicioso! Havia dois monges extraordinários, de buréis brancos, tão pequenos e tão trôpegos que as senhoras tinham de os segurar pelos braços nas quadrilhas e que queriam constantemente dançar, mais joviais que os cavaleiros, prontos e atirar-se sempre aos bracinhos da camponesas  toucadas de flores. 
                    O puro Sir Galahad, já sem broquel e sem murrião, galopava doidamente com uma ligeira fada, chegada nessa manhã da Bretanha, das florestas de Broceliande. Um bardo, com coroa de folhas de carvalho enterrada até aos olhos, chorava por ter perdido a sua harpa. Havia também um príncipe do Mar do Norte, um castelão de Erin e o bravo cavalheiro Bors, que que se tinha refugiado a um canto, por detrás dum sofá, onde sentados no chão continuavam na sua divertida merenda com bolos , dando gritos, quando as senhoras queriam pôr cobro àquela gulatão imprópria de paladinos cristãos. 
                     No corredor o pai Bird teve de suster um rechonchudo abade, que arregaçava as vestes sacerdotais e ia, furioso, sovar o intrigante cavaleiro Modred. E não foi possível realizar a parte mais picante da lenda, fazendo com que Lancelote do Lago cortejasse Guinevra. O bravo Lancelote (bem diferente do outro) parecia de coração duro e  sem gosto pelo sorrir das damas. Terminou mesmo por ter uma hedionda perrice, e caiu nos joelhos da mamãe, com duas grossas lágrimas nas pestanas e a sua bela pena escarlate  caída no chão, como numa tarde de derrota. 
                     Cedo os bebês começaram a estar cansados. Eu mesmo, no meio da festa, tive de levar ao colo o venerável bispo de Blackburn com a sua mitra e com o seu rico baculo. Os seus doces olhinhos azuis fecharam-se  de sono. Deitei-o num sofá, junto da mais pequenina das rainhas do Walhalla, que já ali dormia sob o véu negro, com os cabelos de ouro soltos e o lírio do Paraiso entre as mãozinhas cruzadas... 
                     E o santo bispo candidamente adormeceu ao lado da mística rainha. 
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BREVE BIOGRAFIA DE Eça de Queiroz. 
José Maria Eça de Queiroz, romancista português, nasceu em Povoa de Varzim em 25 de Novembro de 1843 e morreu em Neuilly a 17 de Agosto de 1900, sendo cônsul de Portugal em Paris. Filho de um magistrado, Eça foi educado também para a magistratura, fazendo os primeiros estudos no Porto e formando-se em direito na Universidade de Coimbra. Em 1866 veio para Lisboa, escrevendo na Gazeta Portugal e colaborando depois com Ramalho Ortigão no Ministério da Estrada Cintra, romance em cartas para do Diário de Notícias, e nas Farpas, mensário de crítica da política, das letras e dos costumes. Tendo feito concurso para cônsul, foi em 1872 nomeado para Havana, passando mais tarde a Newcastle, Bristol e Paris. Em 1899-90 dirigiu a Revista de Portugal. Foi o mestre do realismo nas letras portuguesas, e a sua obra, de extraordinária originalidade e valor artístico, cintilante de humorismo e de ironia, compreende: "O Crime do Padre Amaro", ed.definitiva, 1876; "O Primo Basílio", 1877; "A Relíquia", 1887; "Os Maias", 1888; "A Ilustre Casa de Ramires", 1897; "A Cidade e as Serras", 1901; "O Mandarim"; "Correspondência de Fradique Mendes"; Contos; Prosas Bárbaras; Ecos de Paris; Cartas de Inglaterra; Uma Companhia alegre, (reunião de seus artigos nas Farpas), etc. 
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Nicéas Romeo Zanchett 
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quinta-feira, 13 de junho de 2013

DOM QUIXOTE DE LA MANCHA



DOM QUIXOTE DE LA MANCHA 
                 Miguel de Cervantes Saavedra nasceu em Alcalá de Henares, Espanha, em 1547. Assentou praça e tomou parte em numerosos combates, entre os quais a célebre batalha de Lepanto. Capturado, mais tarde, pelos Turcos, foi escravo do Rei de Argélia durante cinco anos. Após sua libertação regressou à pátria e obteve um emprego público, onde se manteve por muito tempo, entre dificuldades financeiras e infinitas injustiças. Foi preso várias vezes, por acusações que sempre se revelaram infundadas, e foi atormentado, em quase toda a sua existência, por uma triste pobreza, que terminou somente com a sua morte ocorrida em Madri em 1616. Escreveu numerosos dramas e comédias em verso, como  "Pedro de Urdemalas" e "O Vigilante" além de algumas obras em prosa como "A Galateia" e "Novelas Exemplares". Mas sua obra máxima, aquela que fez dele o maior escritor espanhol de todos os tempos, e um dos maiores do mundo, é "El Ingenioso Hidalgo don Quijote de la Mancha", escrita entre 1600 e 1615. Um romance imenso , onde se movimenta e vive uma multidão de personagens, toda a Espanha maltrapilha e esplêndida do século XVII, um mundo brilhante e perfeito qual um poema de Homero. Dom Quixote, desventurado Cavaleiro do Ideal, o "Louco Sublime", como o denominou o nosso maravilhoso Olavo Bilac, representa o homem que não se rende nem se conforma ante a mísera realidade de seu tempo e que nunca se torna ridículo, nem mesmo  em suas mais desastradas aventuras, mas a sutil veia de humorismo que transparece em todo o livro é amarga e não alegra ninguém. Ainda hoje, após quatro séculos, a magra e triste figura de Dom Quixote, para nós, continua tão grande e viva como então. Símbolo eterno da loucura heroica, que a dura rispidez dos homens poderá achincalhar e fustigar, mas nunca eliminar. 
                   Num esquecido e sonolento povoado de Espanha, mais precisamente, na região da Mancha, vivia um proprietário de terras - um hidalgo, como o chamavam naquele país - chamado Dom Quixote. Sua existência transcorria serena, em companhia de uma sobrinha e de uma velha serva; tão tranquila e tão livre de qualquer preocupação, que ele passava a maior parte do tempo trancado em casa, imerso na leitura. Infelizmente, sua preferência era para o pior gênero literário que então se podia encontrar; ou seja, pelos livros de aventuras e cavalaria. E tão apaixonado estava por aquilo, que gastava  boa parte de suas rendas para adquirir tais livros e, o que é pior ainda, ia enchendo a cabeça com fantasmagorias, com grave prejuízo para o bom senso.  Até que, exaltado pelas proezas de Amadis e Gaula e de Tirante, o Branco, resolveu tornar-se cavaleiro errante e sair pelo mundo afora, em busca de glória, matando gigantes e conquistando impérios. Sem nada dizer a ninguém, ajustou e poliu velhas armaduras e armas que conservava no sótão, adaptando a um morrião (peça de armadura medieval) uma viseira de papelão; rebatizou o cavalo, um animal magro e cheio de achaques, com o belo e sonoro nome de Rocinante. Finalmente, considerando que seu sobrenome era demasiado prosaico e pacífico, resolveu chamar-se Dom Quixote de La Mancha.
                    Um cavaleiro que se respeite deve possuir uma dama que reine absoluta em seu coração, que lhe incuta ânimo para levar a termo as mais difíceis tarefas, que o faça delirar de amor, enfim, uma soberana espiritual a quem o herói possa oferecer os troféus de suas vitórias. Dom Quixote, após muito meditar sobre o essencialíssimo detalhe, resolveu eleger como senhora de seus sonhos, uma camponesa de rosto aprazível que vivia na vizinha aldeia de Toboso,  que subitamente viu seu nome plebeu, Aldonsa Cocuelo, transformado no suavíssimo Dulcineia. 

                 Concluído os preparativos, sempre sob o máximo sigilo, o nosso herói, num belo dia e antes do sol nascer, esgueirou-se por uma portinha lateral de seu jardim, armado e a cavalo, rumo ao seu extraordinário mundo de sonhos. Depois de um dia  de marcha pelos campos desertos, sob o ardor de um calor imenso, chegou a uma solitária estalagem, que ao seu cérebro conturbado surgiu qual um castelo de torrões. Os aldeões e os tropeiros, que ali estavam hospedados, ficaram espantados com o aspecto bizarro do novo hospede e ainda mais com o seu linguajar, todo repleto de reminiscências cavaleirescas. Julgaram-no doido - e não se enganavam - e divertiam-se a valer, ao receberem requintadas alocuções, como se fossem damas e fidalgos de alta estirpe. 
                 Enquanto marchava pelos campos, Dom Quixote lembrava-se de que ainda não tinha sido armado cavaleiro, por isso chamou de lado o castelão, isto é o estalajadeiro, e pediu-lhe que ele próprio providenciasse a investidura.  O sagaz hoteleiro, que compreendera com quem estava lidando, de bom grado prestou-lhe a brincadeira, pensando também em livrar-se o quanto antes daquele hóspede pouco desejável. A cerimônia ocorreu na cocheira à luz de velas, entre os olhares  admirados dos cavalos e os risos mal contidos das pessoas presentes. O único sério li era Dom Quixote que, compenetrado, ouvir com muita atenção as preces murmuradas pelo estalajadeiro, e recebeu de joelhos, o toque da espada no ombro esquerdo. 

Após a cerimônia, o estalajadeiro, com muito tato, perguntou-lhe se trazia dinheiro consigo. Com sua invejável candura, respondeu que jamais lera em livro algum que os cavaleiros errantes levassem dinheiro em suas jornadas. O estalajadeiro não se zangou e limitou-se a aconselhá-lo que, para o futuro, não saísse mais desprevenido, garantindo-lhe que todos os guerreiros costumavam ter uma bolsa bem recheada, pendurada na cela, e que se os livros não faziam referência  a isso, era porque se tratava de coisa pouco importante. 
                  No dia seguinte, quando Dom Quixote encontrava-se novamente cavalgando pelos prados, seus anseios de aventuras estavam mais sólidos do que nunca. E eis que, enquanto ruminava consigo mesmo inimagináveis triunfos, viu que vinha ao seu encontro uma comitiva de cavaleiros. Aquilo lhe parecia um bando de guerreiros sarracenos e, por isso, ficando ereto nos estribos, interpelou-os com violência: - Que ninguém se mova até que todos confessem que não existe dama mais formosa que a incomparável Dulcineia del Toboso! 
                  O estilo retumbante e empolgado era aquele dos livros de cavalaria, mas os cavaleiros limitaram-se a sorrir zombeteiramente diante da estranha figura do nosso herói, e prosseguiram seu caminho. Furioso, Dom Quixote atirou-se contra eles, de lança em riste, mas o pobre Rocinante, pouco habilitado ao golpe, tropeçou e tombou ao solo, juntamente com seu cavalo. 
Sem perda de tempo, um dos rapazes da comitiva foi para cima do desventurado cavaleiro e, partindo-lhe a lança em duas partes, surrou-o violentamente, deixando-o caído, todo dolorido e cheio de ferimentos. 

                  E assim, o pobre Dom Quixote, queixando-se debilmente, permaneceu ali sozinho e incapaz de montar novamente em seu cavalo. Felizmente para ele, passou por ali um camponês de sua aldeia, que o ajudou montar  e o reconduziu à casa, envergonhado e em péssimas condições físicas. 
                   Assim sendo, de maneira bastante sofrida para um cavaleiro andante, encerra-se a primeira incursão de Dom Quixote. Todavia, todo aquele sofrimento não foi suficiente para abater-lhe o ânimo; durante dois ou três dias ficou acamado e aproveitou para meditar sobre seu futuro e decidiu que era urgente contratar um escudeiro. Mal restabelecido da surra, foi procurar um camponês, seu conhecido, chamado Sancho Pança, que parecia corresponder ao que desejava. Falou longamente, em segredo, com o bom homem que era jovem e tão simples de alma como ele próprio. Diante de seus olhos espantados, contou-lhe todas suas miragens e fantásticas aventuras; até comprometeu-se a entregar-lhe o governo da primeira ilha que conquistassem. O bom Sancho acreditou que finalmente havia encontrado uma tarefa que estava de acordo com seus sonhos e concordou em partir imediatamente. 
                 Assim, numa bela manhã, não muito distante daquela tão famosa de sua primeira aventura, Dom Quixote retornou rumo aos campos, desta vez seguido de por Sancho, seu fiel escudeiro, montado num burrico. Após algumas horas de trote avistaram um grupo de moinhos de vento que, imóveis como torres, se destacavam na linha do horizonte.
                  - Veja, Sancho! -exclamou Dom Quixote, assim que os vislumbrou. - está vendo, lá no fundo, trinta imensuráveis gigantes que ousam atravessar-me o caminho? Ponha-se de lado e fique rezando, porque vou enfrentá-los e combate-los até ficarem prostrados ou acorrentados sob meu poder. 
                  Sancho estava vendo apenas moinhos e procurou convencê-lo disso, mas Dom Quixote já estava galopando distante, de cabeça baixa e lança em riste. Para sua infelicidade, justamente quando chegava junto ao primeiro moinho, este recebeu uma rajada de vento e começou a girar suas pás; a lança do cavaleiro errante enroscou-se numa delas de tal maneira que cavalo e cavaleiro foram erguidos ao ar e arremessados para bem longe. 
Vendo aquilo, Sancho imediatamente correu para junto de seu amo, ainda tonto pelo voo inesperado e respectiva queda; disse-lhe então que o havia prevenido  de que aquilo eram moinhos e não gigantes, mas o incorrigível Dom Quixote, com a voz fraquinha, respondeu-lhe que fora a perversidade e feitiçaria de seus inimigos que tinha feito aquela transformação; pois ele estava certo de que realmente eram gigantes de carne e osso. 
                  Como primeira aventura em companhia de seu fiel escudeiro, não estava nada mal, mas se tratava apenas do início de uma série de extraordinárias empreitadas. Para o bom Sancho Pança foi a primeira experiência, em que se encontrou em luta contra a desenfreada fantasia de seu senhor, que via monstros e guerreiros por toda parte, loucos infindos, sem o mínimo de respeito pela prosaica realidade. E todas as seguintes terminariam do mesmo modo: trambolhões e cacetadas, que cobriam de ferimentos os dois obstinados caçadores de glórias. O mesmo aconteceu quando Dom Quixote atacou um rebanho de carneiros, certo de que se tratava de um poderoso exército, no qual julgava reconhecer - e enumerava-os ao estarrecido Sancho - os maiores guerreiros. E nem melhor sucesso tiveram, quando o nosso impagável cavaleiro libertou um grupo de condenados, que eram conduzidos às galés. 
Dom quixote pretendia libertá-los e depois enviá-los todos como homenagem a Dulcineia,  mas estes responderam com vaias e pedradas. E assim ocorreu por inúmeras vezes. O tenaz otimismo dos dois parceiros, perdidos em seus sonhos cavaleirescos (embora sancho não estivesse muito convicto da magnitude de sua missão) esbarrava continuamente contra o estúpido bom-senso dos homens. Tal como os mágicos dedos do rei Midas, todas as coisas se transfiguravam, para Dom Quixote, e todos os fatos, mesmo os mais comuns e banais, assumiam proporções legendarias.  E não se diga que ele não via a realidade como era, nada disso! O que ele não se conformava era reduzí-la às suas justas proporções, à banal objetividade do mundo comum, pois desejava viver em seu maravilhoso universo cavaleiresco, qual uma criança que faz de um jardim uma floresta e de um pau uma reluzente espada. Quando ele arranca das mãos de um pobre barbeiro de província sua bacia nova de latão e a mete na cabeça, orgulhosamente declarando com ênfase, que se trata do elmo de Mambrino, admirado em todo o mundo, comporta-se exatamente como um menino que esteja brincando de guerra; quando salta de espada desembainhada, para o palco de teatrinho de fantoches, que representam uma comédia cavaleiresca, e arrasa com os bonecos, não é mais culpado do que um menino que pretende vera realidade em seu mundo de fantasia. 
                  De aventura em aventura, Dom Quixote e Sancho Pança, alegoria vida da heroica loucura e do calmo bom-senso, batiam as estradas da Espanha, já por todos conhecidos, ora injuriados e surrados pelos que apenas lhes mediam as proezas com o metro usual, ora bem recebidos por aqueles que as divertiam com seus extraordinários achados. 
                  Chegando à mansão de um rico e alegre fidalgo provinciano, que os conhecia pela fama, acreditaram ter, finalmente, encontrado o lugar sonhado. 
                O ápice da glória de Dom Quixote foi atingido quando ele, hospedado no castelo de um duque, que desejava divertir-se à custa de nosso herói, se viu tratado com um autêntico cavaleiro errante. A Sancho, o duque entregou o governo da ambicionada ilha que, na realidade, era uma aldeia de propriedade do senhor, uma ilha de terra firme (como foi  explicado a sancho ), e onde o bravo escudeiro experimentou, durante três dias, os aborrecimentos e as angústias do poder, perdendo duma vez por todas a gana de exercitá-lo.  Mas, no entanto, alguém se preocupava em reconduzir o desventurado Cavaleiro da Triste Figura para os trilhos do bom-senso; o curandeiro de sua aldeia, seu velho amigo, e um jovem bacharel chamado Sansão Carrasco. 
                 Um dia, passeando pelas praias  de Barcelona, Dom Quixote viu-se à frente de um guerreiro, todo encerrado em armadura, de viseira calada; era o Cavaleiro da Branca Lua - assim se apresentou o forasteiro -, que desafiava o nunca assaz louvado Cavaleiro dos Leões, para uma disputa mortal. O combate foi rápido: a lança do desconhecido, que a conservava inexplicavelmente levantada, bateu no elmo de Dom Quixote e derrubou-o. 
Com a ponta da espada apoiada à garganta do inimigo prostrado, o Cavaleiro da Branca Lua ditou suas condições: Dom Quixote deveria afastar-se por um ano de sua terra natal, sem tocar em armas nem preocupar-se  de maneira alguma com aventuras cavalheirescas. Depois disso o vencedor montou de novo a cavalo e retirou-se, sem mostrar o rosto,  que revelaria ao desventurado cavaleiro as muito conhecidas feições do bacharel Sansão Carrasco, o autor daquele simulado duelo. 
                   E, dessa maneira, triste e taciturno, Dom Quixote retornou aos seus sossegados campos, seguido por um escudeiro desiludido e ainda mais abatido que seu amo. A vida, para o grande Dom Quixote, voltou a ser o que era antes de sua furiosa febre cavaleiresca, ou seja, a vida plácida de um honesto fidalgo de província. Por pouco tempo, porém, pois sua última e dura experiência o deixara intimamente abalado, de tal forma que caiu gravemente enfermo. 
Talvez foi a febre ou até uma intervenção divina, mas surgiu o milagre que tantos não haviam conseguido realizar, embora muito sofressem com a estranha loucura do seu grande amigo. 
                  Numa certa manhã, Dom Quixote despertou com a mente lúcida e clara, percebeu seu demorado engano e teve pena de si mesmo. Não sobreviveu por muito tempo em sua nova condição de lucidez.  Era o fim; pouco depois, arrefecido o ardor cavaleiresco, ele expirou entre seus entes queridos; Entre eles estava Sancho Pança, que mais do que todos chorava inconsolavelmente. A morte encerrava para sempre, com um sereno epílogo, a aventura terrena do último cavaleiro errante. 
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Todos nós temos um pouco de Dom Quixote. As ilusões da vida nos levam a sonhar com o impossível, mas, muitas vezes, é uma feliz volta no tempo; quando, ainda crianças, brincávamos sem pensar nas consequências e nos riscos que a vida real nos reservava. 
Muitas vezes vivemos com medos imaginários e até vemos gigantes e guerreiros nos perseguindo. Estamos sempre à procura de glória e coisas impossíveis que nos trazem grandes sofrimentos e decepções.
Nicéas Romeo Zanchett

quinta-feira, 14 de abril de 2011

O ESPÍRITO DE GOETHE - Por José Enrique Rodó

                   O ESPÍRITO DE GOETHE - Por José Enrique Rodó
O mais alto, perfeito e típico exemplar de vida progressiva, dirigida por um princípio  de renovação constante e de infatigável aprendizagem, que nos oferece nos tempos modernos a história natural dos espíritos, é, sem dúvida, o espírito de Goethe. Nenhuma  alma mais cheia de mudanças do que aquela, vasta como o mar e como o mar liberrima e incoercível;  nenhuma mais rica na multiplicidade das  suas formas; porém, esta perpétua agitação e diversidade, longe de ser movimento vão, uma dispersão estéril, é o hercúleo trabalho de engrandecimento e de perfeição de uma natureza dotada, em maior grau do que qualquer outra, da aptidão do cultivo próprio; é a obra fecunda, no empreendimento de erigir aquilo que ele chamou, numa magestosa imagem, "a pirâmide de sua existência".
Retocar os contornos de sua personalidade, à maneira do pintor insatisfeito que nunca logra acabar uma tela à sua vontade, ganhar a cada momento em extenção, em intensidade, em força e em harmonia, e para isto, vencer em cada dia um limite mais; verificar uma nova e instrutiva experiência; participar, já pela impressão direta, já por humana simpatia, de sentimento ignorado; penetrar uma idéia desconhecida ou enigmática, compreender um caráter diferente do seu: tal é a norma desta vida, que ascende, numa espiral gigantesca, até circunscrever o mais amplo e esplêndido horizonte que olhos humanos jamais descortinaram. Por isso, assim como a inação que enerva e paraliza, odeia a monotonia, a uniformidade, a repetição de si proprio, que são a forma como a inércia  se disfarça em ação. Para o seu grande e alto espírito a inconseqüência é um alto dom do homem, pois falta da inconseqüência daquele que se aperfeiçôa; e as contradições não implicam fraquesa desde que se deem naquele que se depura e retifica.
Tudo nele contribui para um processo de renovação incessante: inteligência, sentimento, vontade. A sua ânsia infinita de saber, difundida por tudo quanto a natureza e o espírito abarcam, leva sem descanso novos combustíveis à fogueira devoradora do seu pensamento; e cada forma de arte, cada modalidade da ciência em que põe as mãos, outorgam como arras dos seus amores, uma original formosura e a uma insuspeitada verdade. Incapaz de limitar-se a um sistema ou a uma escola, rebelde a toda a disciplina que trave o arranco espontâneo e sincero da reflexão, a sua filosofia é como a luz de cada aurora, coisa nova, porque nasce, não de um formalismo lógico, mas do seio vivo e fundente de uma alma. Tudo quanto para ele conduz, através do espaço e do tempo, o éco de uma grande aspiração humana, um credo de fé, um sonho de heroísmo ou de beleza, é íman do seu interesse e simpatia. E a este caráter dinâmico do seu pensamento corresponde na sua sensibilidade um idêntico atributo. Lança-se ávido  de combates e de gosos às realidades do mundo; quer ascender a experiência do seu coração até esgotar a taça da vida; perenemente ama, perenemente anela; cuida porém de dirigir os seus desejos e paixões de maneira que não o domine senão até ao instante em que possam cooperar na obra do seu aperfeiçoamento. Tampouco foi escravo de um afeto imutável como de uma idéia exclusiva.
Esgotada em sua alma a força vivificadora ou a balsâmica virtude deuma paixão; reduzida esta pela força de inércia ou por travos ingratos e doentios, apressa-se a reinvidicar a sua liberdade, e perpetuando em fórma de arte a memória do passado, acode por expontâneo arranco da vida ao reclamo de um novo amor. Sobre toda esta efervescência do seu mundo íntimo, se impõe sempre emancipada e potente, a força indomável da sua vontade.  Dilata-se, renova-se e reproduz-se na ação, não menos que nas idéias e nos afetos. A sua esperança é como o natural resplendor da sua energia. Nunca o amargo travo da derrota é para ele mais do que um estímulo para novas lutas; nem a falta de saúde, os desgostos, a glória de empalidece e fraqueja , resistem largamente às reações da sua vontade hgeróica. De braço dado com o tempo, para forçá-lo a dar-lhe capacidade para quantos propósitos acumula e forja, multiplica os anos pelo coeficiente da sua atividade sobre-humana. Não hána sua vida, sol que ilumine a imitação maquinal, um apago reflexo do que os outros acenderam. cada dia que passa é para ele uma renovação de originalidade. Cada dia, diverso: cada dia,mais amplo; cada dia, melhor, consagrado cadaum deles, como um Siypho da sua própria pessôa, a erguer outro Goethe das profundidades da sua alma; nuca cessa de atormentá-lo o pensamento de que deixará incompleta a concepção do seu destino: ambicionaria ver pelos olhos de todos, reproduzir em seu íntimo a infinita complexidade do drama humano, identificar-se com tudo quanto tem de ser, submergir-se nas próprias fontes da vida... Chega assim ao pináculo da sua gloriosa velhice, ainda mais fértil e fecundo que em seus verdes anos, e morre pedindo mais luz; e este sublime anelo é como o cunho da sua existência e do seu gênio, porque traduz, ao mesmo tempo, a ânsia do saber em que perseverou o seu espírito insaciável e a necessidade de expansão que estimulou a sua vontade imensa.
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José Enrique Rodó, escritor uruguaiano, nasceu em Montevideu em 1872. Catedrático de literatura na Universidade de Montevideu, politico, deputado em mais de uma legislatura, jornalista, presidente do "Círculo de la Prensa" em Montevideu, devem-se-lhe as seguintes obras: Ruben Dario; Ariel; Liberalismo e Jacobinismo; Notivos de Proteo, sua obra capital.
Nicéas Romeo Zanchett
http://gotasdeculturauniversal.blogspot.com/